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quarta-feira, 19 de março de 2014

O porquê dos nossos sentimentos - Sobre ideias e conclusões que cheguei antes de António Damásio

Primeiro quero dizer que é uma honra para qualquer escritor de divulgação científica ver algumas de suas ideias concordando com outras de um cientista de renome internacional como o neurologista e neurocientista António Damásio, no livro "E o cérebro criou o homem".Longe de qualquer comparação porque não tenho a experiência de mais de trinta anos como professor e pesquisador em uma universidade como ele, sou grato a este incrível cientista que investiga a consciência humana, um assunto que me fascina.

Escrevi dois artigos, "O porquê dos nossos sentimentos"2 e "O porquê dos nossos sentimentos – II",3 que foram publicados pela primeira vez na revista eletrônica Cérebro&Mente – www.cerebromente.org.br – em 2001 e 2002, respectivamente, e, depois, publiquei-os em um blog meu, “Sistemas, Teoria da Evolução e Neurociências”,4 em 2008.

Fazendo um pequeno resumo eu disse neles que os nossos sentimentos e emoções serviram e foram essenciais à perpetuação da espécie humana na Terra. Eles sempre foram e são a força de ligação entre pais e filhotes, em aves e mamíferos, basicamente, e em nós humanos também, nascidos sem nenhum preparo para enfrentar o mundo que nos rodeia, e, portanto, é uma ligação imprescindível para os genitores protegerem e ensinarem esses pequenos e indefesos animais até a maturidade.

Também falei que usamos os sentimentos, emoções, inteligência e a consciência para transpormos, para vivermos em um nível funcional sistêmico5 mais alto do que apenas dormir, beber, comer e termos filhos, embora não coloquei esta denominação como está aqui. Buscamos prazeres, podemos sonhar e irmos atrás dos nossos sonhos, temos desejos.  Somos livres para escolhermos caminhos dos mais diversos em nossas vidas, de tentarmos o que quisermos.

Isto é o próprio livre-arbítrio ou algo muito parecido com ele, uma conjunção dos quatro fatores acima. Veja como exemplos: (Nós) Sabemos que (nós) podemos. (Nós) Queremos e (nós) vamos atrás. "Nós" e "Eu" são a parte da consciência implícita em nossas ações (podemos, faremos, etc.). Veja que além de uma lógica, de uma previsão lógica, existem nestas frases muitos sentimentos e emoções.

Em meu artigo “O porquê dos nossos sentimentos” eu digo: "… Temos a capacidade de procurar sexo mesmo sem a intenção de procriar. Procuramos porque gostamos, porque faz bem, porque nos satisfaz. Chegamos ao ponto de nos deliciar com um prato só para nos satisfazer mesmo sem estar com fome, ou seja, sem a necessidade momentânea de sobrevivência; por puro prazer. Procuramos coisas como viajar, sair, encontrar alguém para gostarmos, nos divertirmos com amigos, porque faz parte do nosso lazer, do nosso bem-estar".

Depois completo: "Quero dizer que vivemos procurando atividades, conquistas, coisas que nos fazem bem, para a nossa felicidade e bem-estar. Se ora não conseguimos temos outras chances, temos nosso amor-próprio e continuamos a viver, a procurar. Temos fé,6 esperança, sonhamos".

No final do artigo: " … E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc. 'Estados' correlacionados com nossas emoções e sentimentos. Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer."

António Damásio, português radicado nos EUA, no livro "E o cérebro criou o homem", entra no conceito cibernético e/ou da Teoria dos Sistemas, de homeostase, que é a propriedade dos seres vivos, ou de qualquer outro sistema aberto, de manter variáveis internas dentro de certos limites, regulando a si próprio deixando-o estável, sem se destruir, através de mecanismos regulatórios. Aliás eu sempre estranhei o fato dos cientistas desprezarem este conceito e outros da Cibernética porque qualquer forma de vida se mantém como tal utilizando a regulação biológica, química e física. São fenômenos estudados por esta importante e não valorizada disciplina do conhecimento humano, e tão bem explicada nos antigos e clássicos livros como, por exemplo, "Introdução à Cibernética", de W. Ross Ashby e "Teoria Geral dos Sistemas" de Ludwig van Bertalanffy.

A natureza atribui valores. Atribuímos valor inconscientemente e também conscientemente ao que nos faz bem, embora existam variações do que seja bem de umas para outras pessoas. Segundo Damásio: " …Tanto a homeostase básica, orientada de forma não consciente, como a homeostase sociocultural, criada e orientada por mentes conscientes reflexivas, atuam como zeladoras do valor biológico".7 Por sociocultural entende-se o nosso meio ambiente social contendo tudo aquilo ao nosso redor e/ou a nossa ação que nos levará a um mal ou bem.

Esse conceito de valor, ou valor biológico, é importante aqui porque está relacionado diretamente ou indiretamente se um organismo poderá sobreviver ou não. E não só isto: se uma mudança fisiológica e consequentemente mudança (s) em uma ou mais funções, mudará todo um comportamento, ou vários deles, se serão vantagens evolutivas ou não.

Para ter uma ideia sobre valor em nosso cérebro, como exemplo, a neurociência, nas palavras novamente de Damásio " … identificou várias moléculas químicas relacionadas, de algum modo, com os estados de recompensa ou punição e assim, indiretamente, associadas ao valor. Algumas das moléculas mais conhecidas serão familiares a muitos leitores: dopamina, norepinefrina, serotonina, cortisol, oxitocina, vasopressina [...] A neurociência também identificou uma série de núcleos cerebrais que fabricam essas moléculas e as distribuem a outras partes do cérebro e do corpo (os núcleos cerebrais são aglomerados de neurônios)".8

Para ele, valores em nós humanos regulam desde funções micros, automáticos, e também os macros relacionados a uma vida rica em bem-estar.

Não existe ser humano nenhum que não pense em seu próprio bem-estar. Por mais diferentes culturas a que pertencem, por mais diferentes sejam as vidas das pessoas, por tudo o que existe para procurar e melhorar o bem-estar, etc., esta sempre foi e será uma meta a alcançar.

Nos primeiros parágrafos de “O porquê dos nossos sentimentos” eu falo da nossa procura por sexo sem a necessidade de procriação para o nosso prazer, para nos sentirmos bem, que são faces do nosso bem-estar. Digo também de comer alimentos saborosos, sair, diversão, e, se você fizer uma lista de tudo o que procura e faz no seu dia a dia, em sua vida, ficaria exausto de tantas situações a descrever.

Veja, sentimentos, emoções, inteligência e consciência nos fazem indivíduos libertos a experimentarmos, procurarmos, etc., porque, como eu já disse: "…Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer". Na verdade não seríamos nem humanos sem tudo isto.

Resumindo, a minha frase: "…E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc.", é a nossa sempre procura de bem-estar que Damásio cita em seu livro "E o cérebro criou o homem".


Notas:

1 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 440 p.


In english: “Our feelings. Why do we have them? - (2)”


5 - Na falta de um termo melhor ou apropriado. Considere o conjunto total de matéria, energia, informação e, principalmente, a qualidade dessa informação de um ser vivo. Alguns indivíduos podem possuir menos massa, gastar menos energia que outros, mas, tendo uma quantidade e/ou qualidade de informações superiores, em que pesem mais estes fatores, "por definição" vivem em um nível funcional sistêmico mais alto. É o caso dos humanos e das baleias. Elas possuem mais massa, gastam mais energia e possuem um cérebro maior que os nossos, mas, a nossa qualidade de informação é tão maior, que no conjunto total desses fatores, o nível funcional sistêmico, faz com que fiquemos em primeiro lugar. Muitos dinossauros eram pesados mas os cérebros bem pequenos os tornavam pobres em nível sistêmico, e, por outro lado, pequenos mamíferos como os roedores, com massas e muito menor gasto de energia que animais maiores, poderão ter, devido às suas vivacidades e inteligências, um nível funcional sistêmico mais elevado.

6 - Pode ser mesmo a fé em entes sobrenaturais (na verdade errônea) ou o acreditar e a fé em nós mesmos. Faço uma distinção clara entre elas em vários artigos meus, como por exemplo: 
"O acreditar e a fé como vantagens evolutivas"
"Consciência, Amor-Próprio, Fé e Transcendência"

7 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 43-44

8 - 1 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 67


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