Argos Arruda Pinto

Argos Arruda Pinto
Facebook: Grupo Artigos de Física e Matemática - https://www.facebook.com/groups/424941321692611

Facebook:

Facebook: Grupo Publicações de Neurociência Cognitiva e Neurofilosofia - https://www.facebook.com/pubneurocognitiva. Facebook: Grupo Neurociência, Neurofisiologia e Teoria da Evolução - https://www.facebook.com/groups/916933883890969
Mostrando postagens com marcador Sentimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sentimento. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de março de 2026

A força dos sentimentos e emoções na perpetuação dos humanos na Terra

Imagine a época dos caçadores coletores há dezenas ou centenas de milhares de anos atrás. Não havia a linguagem, a escrita, e talvez o modo de comunicação dos humanos eram os gestos e gritos. 

Os bebês nasciam e imediatamente eram protegidos pelas mães enquanto os homens os protegiam contra os próprios integrantes dos seus grupos, de animais, chuva etc. Ninguém sabia da responsabilidade de ser pai com alguém tão frágil porque não sabiam quem ou o que os geravam, apenas entendiam que algum nasceria pelo fato da barriga de uma mulher crescia em um padrão aproximado e comum a cada uma delas, mas havia sentimentos, zelo etc., ou seja, os pequeninos estariam protegidos e teriam suas vidas preservadas.  

Parte do instinto de preservação da vida aos pequenos era substituída pela inteligência outrora escassa de seus antepassados. As mães os amamentavam por instinto, mas também aprendiam, por exemplo, que os choros dos recém-nascidos era um indício dessa necessidade. 

Existem muitos exemplos os quais não ficaram registrados em nada a indicar a complexidade de comportamentos para a sobrevivência e cuidados ao bem-estar de crianças totalmente inaptas a viverem neste mundo sozinhas até serem donas das próprias vidas. 

Estamos na Antropologia, uma disciplina na qual é relativamente fácil deduzir, pensar etc., em como os humanos resolvem problemas, inventam saídas para situações embaraçosas etc. E é justamente aqui, no início da jornada do ser humano na Terra que posso apresentar a você leitor uma experiência idealizada, surreal, sem querer te convencer de algo que, se fosse hoje, talvez seria mais complicado. 

Retire todos os sentimentos e emoções relativos aos comportamentos dos homens e mulheres a respeito de todos os cuidados aos bebês e a espécie humana não estaria até hoje no planeta. 

Você quebraria o elo principal entre eles e os pais abandonariam os filhos, não haveria quem cuidasse deles e pronto! 

Sentimentos e emoções estavam presentes em animais mais antigos que os humanos, principalmente nos mamíferos. Na história da vida, conforme a complexidade crescia em seres vivos, comportamentos eram selecionados pela evolução. No caso de uma seta de complexidade crescente*, desde os primeiros animais multicelulares até aos mamíferos, esses comportamentos selecionados pertenciam àqueles que não abandonaram as proles e cuidavam dos filhotes.


Nota

(*) Veja “O crescimento do Nível Funcional Sistêmico através da história da vida”. Argos Arruda Pinto. https://argosarrudapinto.blogspot.com/2026/02/o-crescimento-do-nivel-funcional.html.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Uma das grandes características da consciência humana:

Pense nas primeiras recordações da sua vida: seus pais, irmãos, a frente da sua casa, a sala, seu quarto, alguns amiguinhos, etc. O número é grande. 

 
Por volta dos quatro anos de idade é que tomamos contato não apenas com lembranças assim, mas algo também profundo. Era você quem via, interagia com tudo, ou seja, você era o "ator" da realidade à sua volta e de você mesmo onde estivesse. A sua consciência estava presente pela primeira vez na sua vida. 
Você não apenas sabia, em termos lógicos, que era você, mas também sentia. Era um sentimento também junto a pensamentos e ideias lógicas sobre a pessoa ali, você dentro de você! 
 
Você cresceu, passou por todas as fases da vida de uma pessoa, infância, adolescência, juventude, adulta e idoso. Seu corpo mudou muito desde então. Você passou por experiências de vida nunca imaginadas e outras sem importância alguma. O modo de como via e interpretava o mundo mudou também e várias vezes. Sua personalidade foi se formando, transformando, e você chegou à maturidade. Opiniões, sabores, ideias, atitudes, comportamentos, enfim, uma gama muito grande de fatores de quem era e é você hoje também mudou. Mas aquele sentimento e como você era é e nunca mudou... Ele continua intacto desde a sua infância.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Um forte argumento contra um criador inteligente da vida terrestre

Observação 01: Um criador, inteligente, projetista, designer etc., não formaria indivíduos dos mais simples aos mais complexos, com partes, funções, propriedades etc., tão distantes na história da própria vida, com tamanha falta de ordenação. Imagine buscar o quanto você conseguir, de exemplos afins.

Observação 02: Em seu livro A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura, (Damásio, 2018) o neurocientista português - estadunidense António Damásio faz uma espécie de resumo de outros dois livros dele, E o cérebro criou o homem, (Damásio, 2011) e O mistério da consciência (Damásio, 2000) sobre os nossos sentimentos e a consciência, para então entrar no assunto da formação da cultura com forte influência que os sentimentos exerceram. Para nós bastam as origens biológicas dos sentimentos. Você notará algumas palavras ou expressões estranhas no sentido do contexto ao qual ele se refere, como imagens, formação de imagens, qualia, etc. Aconselho uma pesquisa em IA para quem não estiver acostumado com elas, citando o nome dele, pois assim será mais rápido o entendimento desses termos. As expressões "imperativo homeostático" e "em imagens" serão explicados por mim logo abaixo. Não se precisa, evidentemente, ler os dois livros anteriores e este último desde o início. 

Observação 03: Utilizo o tema deste livro do António Damásio para construir o argumento deste texto e todas as citações serão do último capítulo, o treze, de mesmo nome que o livro. 

Damásio expressa uma surpresa e uma estranheza como ele mesmo diz literalmente sobre fatos biológicos relacionados aos sociais, que coloco integralmente abaixo. 

 

O título deste livro foi sugerido por dois fatos. O primeiro é que, 100 milhões de anos atrás, algumas espécies de insetos já haviam adquirido uma coleção de comportamentos, práticas e instrumentos sociais que podem, apropriadamente, intitular-se culturais quando comparados a seus análogos sociais humanos. O segundo fato é que, em um tempo ainda mais remoto, muito provavelmente há vários bilhões de anos, organismos unicelulares também apresentavam comportamentos sociais cujas linhas gerais condizem com aspectos de comportamentos socioculturais humanos. 

Esses fatos certamente contradizem uma noção convencional: a de que algo tão complexo como comportamentos sociais capazes de melhorar a gestão da vida só poderia ter surgido da mente de organismos evoluídos, não necessariamente humanos, mas complexos o bastante e suficientemente próximos dos humanos para engendrar o refinamento necessário. As características sociais sobre as quais escrevo apareceram nos primórdios da história da vida, são abundantes na biosfera e não precisaram esperar o surgimento na Terra de alguma coisa parecida com o ser humano. Isso é verdadeiramente estranho, inesperado, para dizer o mínimo. 

Um exame mais atento revela detalhes por trás desses fatos fascinantes, por exemplo, comportamentos cooperativos bem-sucedidos do tipo que tendemos a associar, e com razão, à sabedoria e maturidade no ser humano. No entanto, estratégias cooperativas não precisaram esperar que surgissem mentes sábias e maduras. Estratégias desse tipo possivelmente são tão antigas quanto a própria vida e nunca se manifestaram com maior brilhantismo do que no conveniente tratado celebrado entre duas bactérias: uma ambiciosa e atrevida, que quis apoderar-se de outra, maior e mais bem estabelecida. A batalha resultou em empate, e a bactéria atrevida tornou-se um satélite cooperativo da bactéria estabelecida. Os eucariotos, células com um núcleo e organelas complexas como as mitocôndrias, provavelmente nasceram dessa maneira, na mesa de negociações da vida. 

As bactérias da história descrita não possuem mente, quanto mais uma mente sábia. A bactéria atrevida opera como se concluísse que "se não pode vencê-la, junte-se a ela". Por sua vez, a estabelecida opera como se pensasse "eu bem que poderia aceitar essa invasora, se ela me oferecesse algo em troca". Mas, obviamente, nenhuma delas pensou [em] coisa alguma. Não houve reflexão mental, consideração manifesta de conhecimentos prévios, astúcia, ardileza, bondade, lisura ou conciliação diplomática. 

A equação do problema foi resolvida cegamente e a partir de dentro do processo, de baixo para cima, como uma opção que, analisando hoje, podemos ver que funcionou bem para os dois lados. No entanto, a solução foi moldada pelos requisitos imperativos da homeostase, e isso não foi mágica, exceto em um sentido poético. Ela consistiu em restrições físicas e químicas concretas aplicadas ao processo da vida, dentro das células, no contexto de suas relações físico-químicas com o meio ambiente [...] O fascinante processo de cooperação não se sustenta sozinho, sem ajuda. As bactérias são capazes de perceber a presença de outras, graças a sondas químicas instaladas em suas membranas, e podem até distinguir as suas parentes das forasteiras por meio da estrutura molecular dessas sondas. Esse é um modesto precursor da nossa percepção baseada em imagens. 

Esses surgimentos em ordem tão estranha revelam o imenso poder da homeostase. O indomável imperativo homeostático, atuando por tentativa e erro, selecionou naturalmente soluções comportamentais disponíveis para vários problemas da gestão da vida. Os organismos vasculharam e avaliaram, impremeditadamente, a física de seu ambiente e a química dentro de suas membranas e, da mesma forma, chegaram a soluções no mínimo adequadas, mas frequentemente boas para a manutenção e a prosperidade da vida. O espantoso é que, quando configurações de problemas comparáveis foram encontradas em outras ocasiões, em outros pontos da emaranhada evolução das formas de vida foram encontradas as mesmas soluções. A tendência a determinadas soluções, a esquemas semelhantes, a algum grau de inevitabilidade, resulta da estrutura e das circunstâncias de organismos vivos e de sua relação com o ambiente, e depende da homeostase de forma assombrosa. (Damásio, 2018, p. 267) 

 

 

Não é de se espantar essa surpresa de Damásio porque parece que funções biológicas simples, de organismos simples, aparecem em organismos muito mais complexos, se repetindo, embora de forma mais complexa, sofisticadas e misturadas no tempo.  

Então Damásio cita o seu principal argumento, um "poder", em todo o livro, o imperativo homeostático. 

 

Homeostático vem de homeostase ou homeostasia, a qual Damásio lamenta ser este termo algo praticamente esquecido por cientistas, não se dando o verdadeiro valor que possui.  

Homeostase é a capacidade de um sistema, e agora se pode falar em sistemas gerais e não apenas orgânicos, de manter variáveis em níveis de valores aceitáveis dentro de certos limites, contribuindo com a própria integridade do sistema ou de partes dele. Um dos exemplos mais simples que posso mencionar é a regulação da temperatura corporal e, sem exageros, não haveria nenhum ser vivo na Terra se não existisse a homeostase. E por isso ele utiliza a palavra imperativo pela importância desse mecanismo.   

 

A expressão “em imagens” pode ser explicada igualmente de maneira simples: se alguém é picado por uma abelha, ele não apenas sente dor e como sabe onde foi, mas faz uma imagem mental consciente da própria dor. Se for uma ponta de uma pedra, dolorida ou não, a imagem será diferente. Isso contribuiu em nossa evolução, como exemplos, deixando-nos cientes em memórias do que dói mais, o que evita, pois a dor é muito intensa sempre, etc.  

 

Para Damásio, as faculdades mentais superiores mais estranhas surgidas em ordem diversa são os sentimentos e a consciência. Poderíamos imaginar, sem sombra de dúvidas, que elas partiram de sistemas em seres complexos, se não em nós humanos, tardiamente na história da evolução. Não é bem assim.  

Cientistas e filósofos citam os córtices cerebrais, estruturas recentes nos cérebros humanos, como os responsáveis por este empreendimento. Eles são regiões do cérebro envolvidas em funções importantes como percepção sensorial, pensamento, memória e tomada de decisões, desempenhando um papel crucial na complexidade das capacidades cognitivas humanas. A subjetividade e o problema dos qualia entram neste assunto. 

Na realidade, como diz Damásio (2018), "núcleos do tronco encefálico e do telencéfalo, todos localizados em nível inferior ao córtex cerebral, são as estruturas cruciais para sustentar os sentimentos e, por extensão, os qualia, que são parte da nossa compreensão da consciência" (p. 271). 

 

Veja mais duas citações dele: "sentimento e subjetividade são faculdades antigas e não dependeram do complexo córtex cerebral dos vertebrados superiores, quanto mais dos humanos, para fazer sua estreia" (Damásio, 2018, pg. 272). E: 

 

 

Em resumo, a construção daquilo que se tornou para nós os sentimentos e a consciência aconteceram de modo gradual, incremental, mas irregular, em linhas separadas da história evolucionária. O fato de podermos encontrar tanta coisa em comum nos comportamentos sociais e afetivos de organismos unicelulares, esponjas e hidras, cefalópodes e mamíferos sugere uma raiz comum para os problemas da regulação da vida em diferentes seres e também uma solução comum a todos: obedecer ao imperativo homeostático. (Damásio, 2018, p. 273) 

 

 

Existem mais exemplos no capítulo treze do livro de Damásio, mas escolhi apenas estes para o texto não ficar tão grande. 

 

Ao mencionar a consciência na citação acima, lembro a você leitor, que ela não é algo do tipo "eu sou eu porque sou" e sim "eu sou eu porque sou e sinto quem sou". Pois bem, razão e sentimentos se fundem quando você olha para dentro de si percebendo e sentindo quem é você. Ela não existiria possuindo apenas uma destas propriedades. Quer dizer, para existir a consciência deve-se ter razão e sentimentos, mas eles surgiram "de modo gradual, incremental, mas irregular em linhas separadas da história evolucionária". 

 

O meu argumento deste texto reside nos exemplos do capítulo treze do livro do Damásio, os quais selecionei aqueles que achei bem relevantes, os comportamentos sociais dos  seres vivos por ele descrito, e, especificamente este último, a formação irregular, descontínua, de duas bases que são das mais importantes do cérebro humano, sentimentos e consciência. Por consequência, dá para imaginar o quão é grande o número de situações semelhantes em nossos corpos e nos outros seres vivos. 

Conforme eu disse na “Observação 01”, um criador, inteligente, projetista, designer, etc., não formaria indivíduos dos mais simples aos mais complexos, com partes, funções, propriedades etc., tão distantes na história da própria vida, com tamanha falta de ordenação. Imagine buscar o quanto você conseguir, de exemplos afins. 

 

António Damásio escreveu este livro na intenção de mostrar como os sentimentos foram importantes para a cultura humana, e, ao resumir de forma brilhante os assuntos dos sentimentos e organismos, vi uma possibilidade de escrever este texto questionando a existência dos seres vivos e dos humanos a partir de um criador inteligente. 

 

 

Referências 

Damásio, A. (2000). O Mistério da Consciência. São Paulo: Companhia das Letras. 

Damásio, A. (2011). E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras. 

Damásio, A. (2018). A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da Cultura. São Paulo: Companhia das Letras.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Sentimentos, homeostase, vida e cultura

Observação: este texto foi literalmente copiado, a menos da Introdução, de uma seção do primeiro capítulo do livro A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura, do neurocientista português naturalizado estadunidense António Damásio, páginas 34, 35, 36 e 37, de nome "Sobre a condição humana", na seção HOMEOSTASE, abaixo, em aspas, após a Introdução, feita por mim. 

Fiz assim porque Damásio descreve com absoluta precisão e resumo sobre a importância da homeostase na regulação e controle no funcionamento geral dos corpos dos seres vivos, indo dos primeiros unicelulares, passando pelos multicelulares, seres vivos sociáveis, nós, os humanos, até a criação das nossas culturas.  

As notas enumeradas em 11 e 12 estão deste modo pois pertencem a esta parte do primeiro capítulo, comigo reproduzindo fielmente o texto do livro, com a referência sendo, evidentemente, o livro de Damásio nas páginas citadas.  

 

Introdução

 

A homeostase ou homeostasia é a capacidade de um sistema ou subsistema em manter certas variáveis internas sob controle, dentro de faixas entre um mínimo e um máximo, a fim de não haver problemas de diversos tipos em regiões ou no todo dentro do sistema. Ela, então, mantém o ambiente interno estável, apesar das mudanças no ambiente externo. Isso é crucial para o funcionamento saudável dos sistemas, organismos vivos, etc. 

Um exemplo muito simples e comum é a regulação da temperatura corporal deixada por volta de 36,6 graus Celsius. Outro, mais abrangente, é o hemograma completo de alguém. São dezenas de íons, moléculas, substâncias, como a glicose, colesterol, triglicérides, ácido úrico, os eletrólitos sódio, potássio e cálcio, tratando da transmissão nervosa e contração muscular, etc. e a realização de funções como a manutenção do pH sanguíneo por volta de 7,4, importante em reações bioquímicas, etc. 

Mas a homeostase não se refere apenas aos ambientes internos dos seres vivos, e sim em sistemas formados por estes, ou seja, os sistemas sociais, de organismos que vivem em grupos e os nossos também. Exemplo: 

Família: A unidade básica de qualquer sociedade, responsável por educar e socializar os indivíduos desde a infância. 

Educação: As escolas e universidades que transmitem conhecimento e habilidades necessárias para o desenvolvimento pessoal e profissional. 

Economia: Os mercados e instituições financeiras que regulam a produção, distribuição e consumo de bens e serviços. 

Governo: As entidades que criam e implementam leis, políticas e regulamentos para manter a ordem e o bem-estar social. 

Saúde: Hospitais, clínicas e outros serviços que garantem o cuidado e a manutenção da saúde pública. 

Enfim, sem a homeostase, que a esta altura você já percebeu que se trata de regulação e controle, não há vida, sociedades, culturas, povos ou países. 

 

"HOMEOSTASE  

 

Como podemos conciliar a ideia - aparentemente razoável - de que sentimentos motivaram soluções culturais inteligentes para problemas trazidos pela condição humana com o fato de que bactérias desprovidas de mente apresentam comportamentos so­cialmente eficazes, cujos contornos prenunciam algumas respostas culturais humanas? Qual é a linha que une esses dois conjuntos de manifestações biológicas que são temporalmente separados por bilhões de anos de evolução? Acredito que o terreno comum e a linha podem ser encontrados na dinâmica da homeostase.  

Homeostase é o conjunto fundamental de operações no cer­ne da vida, desde seu início mais antigo — e há muito tempo desa­parecido nos primórdios da bioquímica — até o presente. É o imperativo poderoso, impensado, tácito, cujo cumprimento per­mite, a cada organismo vivo, pequeno ou grande, nada menos do que perdurar e prevalecer. A parte do imperativo homeostático que diz respeito a 'perdurar' é clara: ele permite a sobrevivência e é considerada indiscutível, sem nenhuma referência ou reverência específica quando se fala em evolução de qualquer organismo ou espécie. A parte da homeostase que diz respeito a 'prevalecer' é mais sutil e raramente reconhecida. Ela assegura que a vida é regu­lada não apenas em uma faixa compatível com a sobrevivência, mas também conducente à prosperidade, a uma projeção da vida no fu­turo de um organismo ou espécie.  

Os sentimentos são a própria revelação, a cada mente indivi­dual, da condição da vida no respectivo organismo, expressa ao longo de uma faixa que vai do positivo ao negativo. A homeostase deficiente expressa-se por sentimentos em grande medida negati­vos, enquanto sentimentos positivos expressam níveis apropri­ados de homeostase e ensejam aos organismos oportunidades vantajosas. Sentimentos e homeostase relacionam-se mutuamente em um grau acentuado e de um modo consistente. Sentimentos são as experiências subjetivas do estado da vida, isto é, da homeos­tase, em todas as criaturas dotadas de mente e de um ponto de vista consciente. Podemos dizer que os sentimentos são os repre­sentantes mentais da homeostase. ¹¹ 

Lamentei que eles tenham sido negligenciados na história natu­ral das culturas, mas a situação é ainda pior quando falamos em ho­meostase e vida, que se veem totalmente deixadas de lado. É bem verdade que Talcott Parsons, um dos mais renomados sociólogos do século XX, invocou a noção de homeostase em relação a sistemas so­ciais, porém, em suas mãos, o conceito não foi associado à vida ou a mecanismos. Parsons é um bom exemplo da negligência dos senti­mentos na concepção das culturas. Para ele, o cérebro foi o alicerce orgânico da cultura, por ser o 'órgão primário para controlar opera­ções complexas, notavelmente as de habilidades manuais, e coordena as informações visuais e auditivas'. Acima de tudo, o cérebro foi 'a base orgânica da  

capacidade de aprender e manipular símbolos'. ¹²  

A homeostase guiou, de modo não consciente e não delibera­do, seu desenho prévio, a seleção de estados de organismos biológicos capazes não só de manter a vida, mas também de promover a evolução de espécies encontradas nos diversos ra­mos da árvore evolucionária. Essa concepção, a que mais condiz com as evidências físicas, químicas e biológicas, é notavelmente diferente da concepção convencional e mais pobre de homeostase, que se limitava à regulação 'equilibrada' das operações da vida.  

A meu ver, o inelutável imperativo da homeostase é o gover­nador  

onipresente da vida em todos os seus aspectos. A homeosta­se vem sendo a base do valor na seleção natural, a qual, por sua vez, favorece os genes — e, consequentemente, os tipos de orga­nismos — que apresentam a homeostase mais inovadora e efi­ciente. O desenvolvimento do aparelho genético, que ajuda a re­gular a vida no nível ótimo e a transmiti-la aos descendentes, não é concebível sem a homeostase.  

Considerando o que foi dito, podemos propor uma hipótese de trabalho entre sentimentos e cultura. Os sentimentos, como representantes da homeostase, são os catalisadores das respostas que iniciaram as culturas humanas. Isso é plausível? É concebível que sentimentos possam ter motivado as invenções intelectuais que deram aos seres humanos (1) as artes, (2) a investigação filosófica, (3) as crenças religiosas, (4) as regras morais, (5) a justiça, (6) o sistema de governança política e as instituições econômicas, (7) a tecnologia, (oito) a ciência? Diria veemente que sim. Posso argumentar que as práticas ou os instrumentos culturais em cada uma dessas oito áreas necessitaram que fosse sentida uma situação real ou antevista de declínio homeostático (por exemplo, dor, sofrimento, grande carência, ameaça, perda) ou de possível benefício homeostático (algum resultado recompensador), e que sentimentos funcionaram como o motivo para explorar, usando os instrumentos do conhecimento e da razão, as possibilidades de reduzir uma necessidade ou de aproveitar a abundância denotada por estados recompensadores.  

Mas esse é apenas o começo da história. A consequência de uma resposta cultural bem-sucedida é o declínio ou o cancelamento do sentimento motivador, um processo que requer a monitoração de mudanças na situação homeostática. Por sua vez, a adoção das respostas intelectuais e sua inclusão em um corpus cultural - ou seu abandono - são um processo complexo que resulta de interações de vários grupos sociais no decorrer do tempo. Esse processo depende de numerosas características dos grupos, desde tamanho e história passada até localização geográfica e relações internas e externas de poder. Envolve etapas subsequentes nas esferas do intelecto e do sentimento - por exemplo, quando surgem conflitos culturais, entram em cena sentimentos negativos e positivos, que contribuem para resolver ou agravar os conflitos.  

O processo faz uso da seleção cultural."  

 

Notas  

 

11. Como já dissemos, a relação consistente entre sentimentos rompe-se durante sentimentos intensos. A tristeza extrema não necessariamente expressa uma deficiência extrema de homeostase básica, embora possa resultar nessa deficiência e até ser responsável pelo suicídio. A tristeza e a depressão circunstanciais expressam situações sociais desfavoráveis, e, em circunstâncias assim, sentimentos realmente atuam como indicadores de perigo iminente para a regulação homeostática.  

12. Talcott Parsons, "Evolutionary Universals in Society" (American  

Sociological Review, n. 3, pp. 339-57, 1964); "Social Systems and the  

Evolution of Action Theory", 1980 (Ethics, v. 90, n. 4, pp. 608-11,  

1980). As ideias de outros pensadores das ciências sociais - por  

exemplo, Pierre Bourdieu, Michel Foucault e Alain Touraine - são mais fáceis de traduzir para a minha perspectiva biológica.  

 

Referência  

 

DAMÁSIO, António Damásio. A Estranha Ordem das Coisas: As Origens Biológicas dos Sentimentos e da Cultura. 1. ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2018. p. 34-37.