Argos Arruda Pinto

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sexta-feira, 6 de março de 2026

A força dos sentimentos e emoções na perpetuação dos humanos na Terra

Imagine a época dos caçadores coletores há dezenas ou centenas de milhares de anos atrás. Não havia a linguagem, a escrita, e talvez o modo de comunicação dos humanos eram os gestos e gritos. 

Os bebês nasciam e imediatamente eram protegidos pelas mães enquanto os homens os protegiam contra os próprios integrantes dos seus grupos, de animais, chuva etc. Ninguém sabia da responsabilidade de ser pai com alguém tão frágil porque não sabiam quem ou o que os geravam, apenas entendiam que algum nasceria pelo fato da barriga de uma mulher crescia em um padrão aproximado e comum a cada uma delas, mas havia sentimentos, zelo etc., ou seja, os pequeninos estariam protegidos e teriam suas vidas preservadas.  

Parte do instinto de preservação da vida aos pequenos era substituída pela inteligência outrora escassa de seus antepassados. As mães os amamentavam por instinto, mas também aprendiam, por exemplo, que os choros dos recém-nascidos era um indício dessa necessidade. 

Existem muitos exemplos os quais não ficaram registrados em nada a indicar a complexidade de comportamentos para a sobrevivência e cuidados ao bem-estar de crianças totalmente inaptas a viverem neste mundo sozinhas até serem donas das próprias vidas. 

Estamos na Antropologia, uma disciplina na qual é relativamente fácil deduzir, pensar etc., em como os humanos resolvem problemas, inventam saídas para situações embaraçosas etc. E é justamente aqui, no início da jornada do ser humano na Terra que posso apresentar a você leitor uma experiência idealizada, surreal, sem querer te convencer de algo que, se fosse hoje, talvez seria mais complicado. 

Retire todos os sentimentos e emoções relativos aos comportamentos dos homens e mulheres a respeito de todos os cuidados aos bebês e a espécie humana não estaria até hoje no planeta. 

Você quebraria o elo principal entre eles e os pais abandonariam os filhos, não haveria quem cuidasse deles e pronto! 

Sentimentos e emoções estavam presentes em animais mais antigos que os humanos, principalmente nos mamíferos. Na história da vida, conforme a complexidade crescia em seres vivos, comportamentos eram selecionados pela evolução. No caso de uma seta de complexidade crescente*, desde os primeiros animais multicelulares até aos mamíferos, esses comportamentos selecionados pertenciam àqueles que não abandonaram as proles e cuidavam dos filhotes.


Nota

(*) Veja “O crescimento do Nível Funcional Sistêmico através da história da vida”. Argos Arruda Pinto. https://argosarrudapinto.blogspot.com/2026/02/o-crescimento-do-nivel-funcional.html.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Um forte argumento contra um criador inteligente da vida terrestre

Observação 01: Um criador, inteligente, projetista, designer etc., não formaria indivíduos dos mais simples aos mais complexos, com partes, funções, propriedades etc., tão distantes na história da própria vida, com tamanha falta de ordenação. Imagine buscar o quanto você conseguir, de exemplos afins.

Observação 02: Em seu livro A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura, (Damásio, 2018) o neurocientista português - estadunidense António Damásio faz uma espécie de resumo de outros dois livros dele, E o cérebro criou o homem, (Damásio, 2011) e O mistério da consciência (Damásio, 2000) sobre os nossos sentimentos e a consciência, para então entrar no assunto da formação da cultura com forte influência que os sentimentos exerceram. Para nós bastam as origens biológicas dos sentimentos. Você notará algumas palavras ou expressões estranhas no sentido do contexto ao qual ele se refere, como imagens, formação de imagens, qualia, etc. Aconselho uma pesquisa em IA para quem não estiver acostumado com elas, citando o nome dele, pois assim será mais rápido o entendimento desses termos. As expressões "imperativo homeostático" e "em imagens" serão explicados por mim logo abaixo. Não se precisa, evidentemente, ler os dois livros anteriores e este último desde o início. 

Observação 03: Utilizo o tema deste livro do António Damásio para construir o argumento deste texto e todas as citações serão do último capítulo, o treze, de mesmo nome que o livro. 

Damásio expressa uma surpresa e uma estranheza como ele mesmo diz literalmente sobre fatos biológicos relacionados aos sociais, que coloco integralmente abaixo. 

 

O título deste livro foi sugerido por dois fatos. O primeiro é que, 100 milhões de anos atrás, algumas espécies de insetos já haviam adquirido uma coleção de comportamentos, práticas e instrumentos sociais que podem, apropriadamente, intitular-se culturais quando comparados a seus análogos sociais humanos. O segundo fato é que, em um tempo ainda mais remoto, muito provavelmente há vários bilhões de anos, organismos unicelulares também apresentavam comportamentos sociais cujas linhas gerais condizem com aspectos de comportamentos socioculturais humanos. 

Esses fatos certamente contradizem uma noção convencional: a de que algo tão complexo como comportamentos sociais capazes de melhorar a gestão da vida só poderia ter surgido da mente de organismos evoluídos, não necessariamente humanos, mas complexos o bastante e suficientemente próximos dos humanos para engendrar o refinamento necessário. As características sociais sobre as quais escrevo apareceram nos primórdios da história da vida, são abundantes na biosfera e não precisaram esperar o surgimento na Terra de alguma coisa parecida com o ser humano. Isso é verdadeiramente estranho, inesperado, para dizer o mínimo. 

Um exame mais atento revela detalhes por trás desses fatos fascinantes, por exemplo, comportamentos cooperativos bem-sucedidos do tipo que tendemos a associar, e com razão, à sabedoria e maturidade no ser humano. No entanto, estratégias cooperativas não precisaram esperar que surgissem mentes sábias e maduras. Estratégias desse tipo possivelmente são tão antigas quanto a própria vida e nunca se manifestaram com maior brilhantismo do que no conveniente tratado celebrado entre duas bactérias: uma ambiciosa e atrevida, que quis apoderar-se de outra, maior e mais bem estabelecida. A batalha resultou em empate, e a bactéria atrevida tornou-se um satélite cooperativo da bactéria estabelecida. Os eucariotos, células com um núcleo e organelas complexas como as mitocôndrias, provavelmente nasceram dessa maneira, na mesa de negociações da vida. 

As bactérias da história descrita não possuem mente, quanto mais uma mente sábia. A bactéria atrevida opera como se concluísse que "se não pode vencê-la, junte-se a ela". Por sua vez, a estabelecida opera como se pensasse "eu bem que poderia aceitar essa invasora, se ela me oferecesse algo em troca". Mas, obviamente, nenhuma delas pensou [em] coisa alguma. Não houve reflexão mental, consideração manifesta de conhecimentos prévios, astúcia, ardileza, bondade, lisura ou conciliação diplomática. 

A equação do problema foi resolvida cegamente e a partir de dentro do processo, de baixo para cima, como uma opção que, analisando hoje, podemos ver que funcionou bem para os dois lados. No entanto, a solução foi moldada pelos requisitos imperativos da homeostase, e isso não foi mágica, exceto em um sentido poético. Ela consistiu em restrições físicas e químicas concretas aplicadas ao processo da vida, dentro das células, no contexto de suas relações físico-químicas com o meio ambiente [...] O fascinante processo de cooperação não se sustenta sozinho, sem ajuda. As bactérias são capazes de perceber a presença de outras, graças a sondas químicas instaladas em suas membranas, e podem até distinguir as suas parentes das forasteiras por meio da estrutura molecular dessas sondas. Esse é um modesto precursor da nossa percepção baseada em imagens. 

Esses surgimentos em ordem tão estranha revelam o imenso poder da homeostase. O indomável imperativo homeostático, atuando por tentativa e erro, selecionou naturalmente soluções comportamentais disponíveis para vários problemas da gestão da vida. Os organismos vasculharam e avaliaram, impremeditadamente, a física de seu ambiente e a química dentro de suas membranas e, da mesma forma, chegaram a soluções no mínimo adequadas, mas frequentemente boas para a manutenção e a prosperidade da vida. O espantoso é que, quando configurações de problemas comparáveis foram encontradas em outras ocasiões, em outros pontos da emaranhada evolução das formas de vida foram encontradas as mesmas soluções. A tendência a determinadas soluções, a esquemas semelhantes, a algum grau de inevitabilidade, resulta da estrutura e das circunstâncias de organismos vivos e de sua relação com o ambiente, e depende da homeostase de forma assombrosa. (Damásio, 2018, p. 267) 

 

 

Não é de se espantar essa surpresa de Damásio porque parece que funções biológicas simples, de organismos simples, aparecem em organismos muito mais complexos, se repetindo, embora de forma mais complexa, sofisticadas e misturadas no tempo.  

Então Damásio cita o seu principal argumento, um "poder", em todo o livro, o imperativo homeostático. 

 

Homeostático vem de homeostase ou homeostasia, a qual Damásio lamenta ser este termo algo praticamente esquecido por cientistas, não se dando o verdadeiro valor que possui.  

Homeostase é a capacidade de um sistema, e agora se pode falar em sistemas gerais e não apenas orgânicos, de manter variáveis em níveis de valores aceitáveis dentro de certos limites, contribuindo com a própria integridade do sistema ou de partes dele. Um dos exemplos mais simples que posso mencionar é a regulação da temperatura corporal e, sem exageros, não haveria nenhum ser vivo na Terra se não existisse a homeostase. E por isso ele utiliza a palavra imperativo pela importância desse mecanismo.   

 

A expressão “em imagens” pode ser explicada igualmente de maneira simples: se alguém é picado por uma abelha, ele não apenas sente dor e como sabe onde foi, mas faz uma imagem mental consciente da própria dor. Se for uma ponta de uma pedra, dolorida ou não, a imagem será diferente. Isso contribuiu em nossa evolução, como exemplos, deixando-nos cientes em memórias do que dói mais, o que evita, pois a dor é muito intensa sempre, etc.  

 

Para Damásio, as faculdades mentais superiores mais estranhas surgidas em ordem diversa são os sentimentos e a consciência. Poderíamos imaginar, sem sombra de dúvidas, que elas partiram de sistemas em seres complexos, se não em nós humanos, tardiamente na história da evolução. Não é bem assim.  

Cientistas e filósofos citam os córtices cerebrais, estruturas recentes nos cérebros humanos, como os responsáveis por este empreendimento. Eles são regiões do cérebro envolvidas em funções importantes como percepção sensorial, pensamento, memória e tomada de decisões, desempenhando um papel crucial na complexidade das capacidades cognitivas humanas. A subjetividade e o problema dos qualia entram neste assunto. 

Na realidade, como diz Damásio (2018), "núcleos do tronco encefálico e do telencéfalo, todos localizados em nível inferior ao córtex cerebral, são as estruturas cruciais para sustentar os sentimentos e, por extensão, os qualia, que são parte da nossa compreensão da consciência" (p. 271). 

 

Veja mais duas citações dele: "sentimento e subjetividade são faculdades antigas e não dependeram do complexo córtex cerebral dos vertebrados superiores, quanto mais dos humanos, para fazer sua estreia" (Damásio, 2018, pg. 272). E: 

 

 

Em resumo, a construção daquilo que se tornou para nós os sentimentos e a consciência aconteceram de modo gradual, incremental, mas irregular, em linhas separadas da história evolucionária. O fato de podermos encontrar tanta coisa em comum nos comportamentos sociais e afetivos de organismos unicelulares, esponjas e hidras, cefalópodes e mamíferos sugere uma raiz comum para os problemas da regulação da vida em diferentes seres e também uma solução comum a todos: obedecer ao imperativo homeostático. (Damásio, 2018, p. 273) 

 

 

Existem mais exemplos no capítulo treze do livro de Damásio, mas escolhi apenas estes para o texto não ficar tão grande. 

 

Ao mencionar a consciência na citação acima, lembro a você leitor, que ela não é algo do tipo "eu sou eu porque sou" e sim "eu sou eu porque sou e sinto quem sou". Pois bem, razão e sentimentos se fundem quando você olha para dentro de si percebendo e sentindo quem é você. Ela não existiria possuindo apenas uma destas propriedades. Quer dizer, para existir a consciência deve-se ter razão e sentimentos, mas eles surgiram "de modo gradual, incremental, mas irregular em linhas separadas da história evolucionária". 

 

O meu argumento deste texto reside nos exemplos do capítulo treze do livro do Damásio, os quais selecionei aqueles que achei bem relevantes, os comportamentos sociais dos  seres vivos por ele descrito, e, especificamente este último, a formação irregular, descontínua, de duas bases que são das mais importantes do cérebro humano, sentimentos e consciência. Por consequência, dá para imaginar o quão é grande o número de situações semelhantes em nossos corpos e nos outros seres vivos. 

Conforme eu disse na “Observação 01”, um criador, inteligente, projetista, designer, etc., não formaria indivíduos dos mais simples aos mais complexos, com partes, funções, propriedades etc., tão distantes na história da própria vida, com tamanha falta de ordenação. Imagine buscar o quanto você conseguir, de exemplos afins. 

 

António Damásio escreveu este livro na intenção de mostrar como os sentimentos foram importantes para a cultura humana, e, ao resumir de forma brilhante os assuntos dos sentimentos e organismos, vi uma possibilidade de escrever este texto questionando a existência dos seres vivos e dos humanos a partir de um criador inteligente. 

 

 

Referências 

Damásio, A. (2000). O Mistério da Consciência. São Paulo: Companhia das Letras. 

Damásio, A. (2011). E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras. 

Damásio, A. (2018). A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da Cultura. São Paulo: Companhia das Letras.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O porquê dos nossos sentimentos: por que eles existem?


Publicado em: 18/01/2015. 
Revisado em: 09/12/2018. 

Introdução 
Sentimentos e emoções existem apenas para o nosso prazer, satisfação em termos de paixões, grandes amores, amizades, felicidade, momentos agradáveis dos mais diversos, etc., excluindo os sentimentos negativos? (1) Não! Há uma razão profunda, complexa, envolvendo todo o funcionamento do nosso cérebro, tornando a nossa vida plena de comportamentos a nos ajustarmos a qualquer ambiente natural, ou outros e nas relações sociais. A Evolução não se manifestou em nossos corpos apenas, mas também no sistema nervoso como um todo, incluindo, então, o cérebro. 

Palavras-chave: evolução, sentimentos, emoções, Darwin, mamíferos, consciência, cérebro, sobrevivência, neurociência. 

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Abstract 
"Feelings and emotions exist only for our own enjoyment in terms of passion, love, friendship, etc. Would that exclude any negative feelings? No! There is a deep and complex reason involving all the functions of our brain that has been evolved, turning our lives full of behaviours to either be adjusted to any natural environment, or not, and to the social relations." 

Wordkeys: evolution, feelings, emotions, Darwin, mammals, consciousnes, brain, survival, neuroscience. 

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Parte I 

Qual a razão dos sentimentos existirem? Por que somos seres racionais e emocionais e não apenas racionais? 
  
A resposta a estas perguntas poderá, inicialmente, soar estranha e aparentemente sem sentido ao leitor, mas está relacionada com a mais poderosa força inerente à condição humana no planeta: a sobrevivência da espécie. 

O conceito de sobrevivência, entretanto, deve ser tomado de maneira mais ampla quando se refere a nós, humanos, pois comer, beber, dormir e procriarmos não bastam. É como se extrapolássemos estes quatro requisitos básicos para sobrevivermos. Precisamos de mais. E este mais está ligado ao nosso bem-estar físico, mental, felicidade e satisfação. 

Sentimentos e emoções são em grande número em nossas mentes; eles afetam nossos corpos, nossos comportamentos, as nossas vidas. Não há espaço aqui para explicar um a um com base na sobrevivência de nossa espécie como animal. Darei exemplos de alguns. Importante realçar também o caráter "estatístico" deste capítulo, no sentido ao qual estarei falando de características de populações. As características de um indivíduo podem representar uma tendência em toda uma população, uma maioria, nas quais as exceções não importam. Quando eu falar de algum sentimento ou emoção, você leitor deverá pensar em termos amplos, gerais. Por exemplo, se digo: o amor é uma força de ligação, a mais importante entre pais e filhos e sem a sua presença a raça humana já estaria extinta, excluo os poucos casos nos quais os filhos foram abandonados ao nascer ou quando crianças. Por outro lado, devemos compreender, sobre o amor, a sua ampla natureza em termos dos nossos comportamentos: certa vez desacreditei um rapaz ao contrariar sua "certeza" em não ver nenhuma vantagem evolutiva nas pessoas que amam. Grande simplificação! Posso amar uma mulher e não querer ter filhos com ela, mas, para um existem outros milhares ou milhões desejosos de formar uma família com a mulher amada. Acontece também com as mulheres. Inclusive somos muito versáteis neste sentido: um casal se separa depois dos filhos se tornarem adultos. Tanto o homem quanto a mulher poderão buscar outro amor ou paixão como eu disse em se procurar o bem-estar. Um casal com filhos adolescentes se separa e ambos procuram novos (as) parceiros (as) em um novo casamento, fato muito comum. Alguns cônjuges divorciados não terão mais filhos enquanto outros sim. E existem muitos outros casos sobre este tema mostrando, digamos assim, uma certa aceleração na quantidade de crianças no mundo, em relação ao fato de não se querer filhos em apenas um casamento, uma vez, em um só relacionamento. 

A Evolução de Darwin sempre fora mal explicada e mal aceita por muita gente. No começo do século XX, aqui no Brasil, era proibido falar nela nas escolas; havia preconceito em todos os países, mas, entre os cientistas ela simplesmente só evoluiu desde a sua concepção no século XIX. Isto criou um abismo entre os conhecimentos da Ciência nesta área e as ideias, pensamentos, suposições, etc., das pessoas comuns em pensar e imaginar sobre como os seres vivos se modificam, se adaptam, sobrevivem, etc. E tudo isso se relaciona apenas com os corpos desses seres; imagine quanta ignorância existe quando se entra na correspondência entre a Evolução e a mente. 

Os seres vivos mais complexos do planeta, aves e principalmente mamíferos, possuem cérebros altamente complexos e adaptados para conseguirem sobreviver aos estímulos negativos, destrutivos do meio ambiente. Insetos, peixes e répteis nascem em um estágio de maturidade o suficiente para se locomoverem e explorarem o mundo exterior; fora isto, o número de filhotes é grande o bastante para nem todos serem devorados pelos predadores. O fato é diferente com os mamíferos: poucos filhotes e frágeis, necessitando-se de uma longa jornada de aprendizagem sobre seu ambiente, para um dia enfrentarem sozinhos os perigos deste mesmo ambiente e procriarem. Aí entram os sentimentos e as emoções. Alguns são básicos e compartilhamos com seres menos complexos: o medo e a agressividade. O medo é importante porque é um sinal de alerta, de algum perigo no meio; quem sobreviveria se não tivesse medo de nada? Seria suicídio em muitas situações perigosas! É necessária a existência de agressividade porque nada pode ser só passivo; enfrentar algum perigo, uma ameaça, requer também respostas passando, às vezes, pela agressividade. Em especial nos seres humanos, a natureza foi "caprichosa" no aspecto emocional: sentimos alegria, tristeza, ódio, paixão, raiva, satisfação, amor, afeto, fé, esperança, etc. Mas todos esses estados foram selecionados pela Evolução. 

Temos a capacidade de procurar sexo mesmo sem a intenção de procriar. Procuramos porque gostamos, porque faz bem, porque nos satisfaz. Chegamos ao ponto de nos deliciar com um prato só para nos satisfazer mesmo sem estar com fome, ou seja, sem a necessidade momentânea de sobrevivência; por puro prazer. Procuramos coisas como viajar, sair, encontrar alguém para namorarmos, nos divertirmos, porque faz parte do nosso lazer, do nosso bem-estar. A palavra gostar está sempre presente; os sentimentos estão sempre presentes. 

Existe o trabalho... Ele deve ser entendido como uma atividade inerente ao ser humano, mesmo qual for o seu modo ou finalidade: do homem de duzentos mil anos atrás ao perseguir uma presa durante horas, ao homem de hoje em um escritório repleto de aparelhos eletrônicos a ajudá-lo em seu dia a dia, tudo é trabalho. Toda atividade implicando em geração de bens ou realização de tarefas imprescindíveis à nossa sobrevivência, mesmo indiretamente. É o caso das sociedades, quase todas no mundo de hoje, modernizadas, tendo o dinheiro como o fruto do trabalho, algo "simbólico", no qual através dele conseguimos satisfazer as nossas necessidades. Existiria o trabalho para nós se não gostássemos? Se não gostássemos ou se não sentíssemos nada com os seus frutos? Não existe somente o ato de trabalhar; sentimentos e emoções, conquistas nos levando a satisfações extremamente benéficas a nós estão em jogo. 

Quero dizer: vivemos procurando atividades, conquistas, coisas que nos fazem bem, para a nossa felicidade e bem-estar. Se ora não conseguimos temos outras chances, temos nosso amor-próprio e continuamos a viver, a procurar. Temos fé, esperança, sonhamos. 

Para se capturar um animal faz-se necessário uma boa dose de agressividade e nós utilizamos recursos muitas vezes cruéis, os quais, se fôssemos parar para pensar, não comeríamos sequer um pequeno peixe do mar. Pode-se imaginar o quanto as nossas sociedades cresceram e se desenvolveram às custas de muitas mortes ou exploração, pelas quais nossos ancestrais utilizaram e muito da capacidade humana de destruição para com os inimigos. E destruir envolve muita coisa de negativo. 

Este capítulo pode dar a impressão de que refere à nossa civilização ocidental, consumista, desejosa de prazeres, poder e dinheiro; não é isso. Ele se refere àquilo que os seres humanos possuem em sua natureza íntima, de básico em suas mentes, na qual se criou todas as culturas e civilizações até hoje. Umas foram mais pacíficas; algumas foram mais mercantilistas, enquanto outras se preocuparam com a tecnologia e produção industrial. Mas a sobrevivência do homem se deu até hoje com a combinação de um lado racional com outro emocional. E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo proporcionando satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc. Estados correlacionados com nossas emoções e sentimentos. Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer. 

Parte II 

Existe uma ordem aparente na evolução animal, uma escala crescente em complexidade nos seres vivos do nosso planeta. De seres unicelulares povoando diversos habitats terrestres, até nós humanos, passando pelos insetos, peixes, anfíbios, répteis, aves e todos os mamíferos, estes últimos menos complexos em relação a nós devido à diferença entre os cérebros de cada um. Em termos somáticos, e até certo ponto no sistema nervoso, somos muito parecidos com eles, do ponto de vista da morfologia, da genética e da bioquímica. É importante lembrar, nesta escala, a não representatividade necessariamente em ordem crescente em complexidade na história evolutiva de cada grupo em relação aos outros. Por exemplo, uma ave é mais complexa que um inseto, mas este pode ser mais novo como espécie. Pode até ocorrer uma diminuição da complexidade ao longo da evolução de uma espécie. 

Atualmente é aceita a origem das novas espécies, sem dúvidas, baseando-se no fato da evolução dos seres vivos, ou seja, se modificando, se adaptando às mudanças no ambiente, etc. Assim, o chamado "modelo padrão" da biologia se consolidou através do casamento entre as descobertas da biologia molecular, da genética e da Evolução. Pode ser argumentado, portanto, sua funcionalidade a todos os aspectos da nossa biologia, inclusive as bases para os nossos mais complexos comportamentos, sentimentos e emoções. 

A evolução biológica se manifesta através de mudanças permanentes (codificadas geneticamente) na forma e função das células, tecidos e órgãos dos seres vivos. O comportamento "surgiu" na Terra há muito tempo. Por exemplo, um ser unicelular, como uma ameba reage se afastando de um estímulo negativo ou se aproximando de um estímulo positivo para sobreviver. Comportamentos simples, como tropismos deste tipo, existem provavelmente há centenas de milhões de anos, ou bilhões de anos, e podem ser encontrados até mesmo em organismos não possuindo sistemas nervosos, como as plantas. Entretanto houve, pela Evolução, uma seleção de comportamentos cada vez mais complexos e avançados, levando à evolução dos órgãos sensoriais, músculos e redes neurais especializadas, pelo avanço dos seres vivos em habitats mais complexos, com números maiores de estímulos tanto positivos quanto negativos. Para o comportamento aplica-se o mesmo raciocínio nos outros traços dos organismos: quanto maior for a gama de comportamentos exibidos por um determinado organismo reagir, sobreviver, maior será a sua chance de se adaptar adequadamente ao ambiente mutante. Diversidade é a palavra-chave aqui. Muitos autores sugerem, portanto, sobre a complexidade cerebral ser essencialmente relacionada à complexidade das estratégias comportamentais selecionadas para a sobrevivência da espécie e os rigores da competição. Por isso não é difícil imaginar como os organismos precisam adquirir e processar uma maior quantidade de informações a respeito do meio ambiente, sendo então selecionado pela Evolução um sistema nervoso mais complexo, mais eficiente. 

Eventualmente (e esse era um dos maiores medos de Darwin, como humanista e religioso), todas as características do cérebro humano, mesmo aquelas consideradas superiores e complexas, como linguagem, pensamento, lógica, sentimentos, etc., podem ser inteiramente explicadas pelos efeitos da seleção natural na Evolução. 

Na Parte I deste artigo citei o exemplo da força de ligação inerente entre pais e filhos, através de sentimentos como o afeto, o amor etc., sem os quais ninguém sobreviveria neste planeta logo após o nascimento. Entretanto, em muitas situações, o instinto de proteger os filhotes entra em conflito com os instintos de sobrevivência. Primeiro, um genitor precisa, entre outras coisas, saber quem são seus filhos, saber das atitudes para protegê-los e a si próprios. Neste ponto o cérebro, com o lado racional, é importante quanto o lado emocional. Além disso: reações como a agressividade contra predadores e comportamentos e sentimentos de defesa em relação ao bem-estar do grupo social como um todo, podem tomar uma precedência em relação aos próprios cuidados com a prole, devido à necessidade de perpetuar a espécie. Podemos observar isto em primatas não humanos, tais como chimpanzés, no qual o infanticídio é muito comum e é relacionado às bases instintivas desses tipos de defesas. 

Isso não acontece em geral com os seres humanos. Devido à evolução cultural, a base emocional e instintiva pode ser inteiramente modificada através da razão. Por exemplo, uma mãe pode preferir sacrificar a própria vida para salvar a do seu bebê. Ou a sobrevivência do grupo social pode ser ameaçada com base em razões puramente racionais (como na guerra). "Saber" é racional, "sentir" é emocional e aí estão os dois pilares cerebrais nos quais falei na primeira parte: somos seres racionais e emocionais e não só racionais. Essas duas esferas estão unificadas e não podem ser separadas, como foi explicado de forma muito bonita pelo neurologista António Damásio, em seu livro "O Erro de Descartes". (2) Citando a falta completa de emoções em personalidades sociopatas e as alterações de personalidade em pacientes lesados em certas áreas frontais do cérebro, tal como no caso histórico de Phineas Gage, Damásio explica que o erro de René Descartes foi a suposição de uma separação entre o racional e o irracional (emoções e sentimentos), e ser supremamente racional seria a melhor coisa para a humanidade. Não é verdade: sem emoção, a racionalidade perde um componente importante e se torna patológica! 

A Evolução acabou por selecionar estruturas cerebrais regulatórias comportamentais nas quais envolviam o problema dos seres vivos possuindo uma prole dependente dos pais durante o período de amadurecimento. As estratégias comportamentais surgidas após milhões de anos da Evolução dos hominídeos e de seleção sexual envolvem uma complexa mistura de razão e emoções. Esta provavelmente é base da nossa singularidade entre todas as espécies. 

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Antes de prosseguir gostaria de dizer algumas palavras sobre a consciência. 
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Ela está presente em muitos momentos e atividades do nosso dia a dia. Veja, por exemplo, em um jogo de xadrez: você pensa: “(Eu) vou posicionar o meu (de “Eu”) bispo da casa branca de maneira a bloquear o xeque do meu (de “Eu” novamente) adversário”. Uma simples frase representando um pensamento estratégico onde a consciência “atua três vezes” representada pela palavra “Eu”. 
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António Damásio, no livro “E o cérebro criou o homem” (Damásio, 2011, p. 310), apresenta o problema dos qualia, no qual um deles, que nos interessa aqui, foi exposto do seguinte modo: “Nenhum conjunto de imagens conscientes, independentemente do tipo e do assunto, jamais deixa de ser acompanhado por um obediente coro de emoções e consequentes sentimentos”. (3) 
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Estamos acostumados a isto que nem nos damos conta. Pelo exemplo acima: “ficarei aliviado pois o xeque do adversário seria seguido de um mate”. Aliviado de quê? Do medo, da expectativa de perder o jogo, que são emoções, sentimentos. 
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A consciência é um poderoso suporte ou auxílio da inteligência. Sempre a utilizamos quando estamos acordados a realizar tarefas das mais diversas ou divagar em pensamentos sem fim sobre qualquer assunto. 

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Parte III 

Imagine quantos milhões ou dezenas de milhões de artigos, livros, poemas, foram publicados sobre e em nome do amor. E tudo aquilo escrito em cartas, pergaminhos e publicações outras? Esta pequena palavra de quatro letras povoou a imaginação, encheu de alegrias e tristezas, arrebatou corações das pessoas em todo o mundo e em todas as épocas. 

Na verdade se trata de números impossíveis de calcular, ainda mais se ousarmos pensar em quantas vezes o amor fora declamado em épocas antes do surgimento da escrita. 

Realmente é tentador para as pessoas pensar, nesse sentimento tão sublime, causas também sublimes, como uma alma, um espírito, além da matéria comum, dentro de nós e criados por um Deus. Ou deuses para os politeístas. Mas não: a Neurociência avança dia a dia elucidando fenômenos até então atribuídos a entes relacionados ao divino, como manifestações de áreas cerebrais, com neurônios mais ativados, a liberar substâncias químicas pelo cérebro e pelo corpo, fazendo-nos sentir bem. 

Somos animais dotados de inteligência e consciência e, por isto, literalmente usamos estas duas capacidades para o nosso bem-estar, “procurando” paixões, relacionamentos amorosos, pessoas especiais, etc., para vivermos um grande amor. 

Conforme a multiplicidade de sentimentos e emoções, tais como a amizade, o carinho, a ternura, a atração, etc., vivemos em um mundo com as nossas mentes funcionando todos os dias em função deles. Nunca paramos. Se você não quer arranjar um (a) namorado (a), você se prende às amizades, só ao sexo, às atrações e aventuras onde as emoções fortes tomam conta da sua vida. 

Não conseguimos viver sem a turbulência de emoções e sentimentos pelos quais o nosso cérebro é o comandante geral. 

Pensávamos em algo imaterial regendo os nossos comportamentos e para a sobrevivência bastaria dormir, comer, trabalhar e fazer filhos. Engano. Aproveitamos nossas habilidades naturais para o que já há décadas se chama “aproveitar a vida”, o antigo carpe diem, do também antigo filósofo latino Horácio (65 a.C. - 08 a.C.) fazendo parte do nosso bem-estar. 

Esta Parte III enfatiza o quanto precisamos “usar” os nossos sentimentos e emoções para o bem-estar fazendo parte também da nossa sobrevivência como eu disse brevemente no último parágrafo da Parte I. 

A última frase “Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer” é poderosa porque não podemos e não somos “programados” para vivermos como autômatos, robôs, executando apenas tarefas repetitivas diariamente. Temos criatividade, inteligência e consciência para fazermos coisas e mais coisas para sentirmos bem, vivermos felizes. 

Talvez seja por isto, em qualquer definição da vida para nós, o bem-estar e a felicidade têm que ser levados em consideração. 

Sentimentos e emoções serviram à evolução para os mamíferos (também aves e menos nos répteis e peixes), sobreviverem no planeta. Mas como temos inteligência e consciência, usamos essas duas maravilhas para o nosso bem-estar e felicidade sem os quais poderíamos também perecer. Isto também é sobrevivência mas em um plano mais elevado de “estados mentais”. 

Acontece algo curioso conosco. Emoções e sentimentos ao encontrarem a consciência e uma inteligência avançada dão um verdadeiro salto em termos de como nós podemos nos valer delas. 

É uma volta parecida ou igual a um feedback no qual podemos alcançar momentos de êxtases inesquecíveis a perdurarem em nossas memórias para o resto de nossas vidas, mas sem a qual não seríamos nós mesmos. 

Retornando ao assunto sobre o “prazer, satisfação em termos de paixões, grandes amores, amizades, felicidade, momentos agradáveis dos mais diversos, etc.”, citado por mim no primeiro parágrafo da “Parte I”, são também, e principalmente, para a sobrevivência da espécie humana na Terra. Sentimentos e emoções como o amor pelos filhos, o carinho, o afeto, gerando respeito, cuidados, etc., também existem para a sobrevivência, inclusive nos outros mamíferos, de modo “simplificado”, mas não menos importante. 
Referências
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1 - Argos Arruda Pinto. A base material dos sentimentos: por que temos emoções e sentimentos negativos? 2018. Disponível em: < https://razaosentimentoemocao.blogspot.com/2018/02/a-base-material-dos-sentimentos-por-que.html >. Acesso em: 09 dez. 2018.

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2 - DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 

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3 - DAMÁSIO, António R. E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 310.