Argos Arruda Pinto

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Um forte argumento contra um criador inteligente da vida terrestre

Observação 01: Um criador, inteligente, projetista, designer etc., não formaria indivíduos dos mais simples aos mais complexos, com partes, funções, propriedades etc., tão distantes na história da própria vida, com tamanha falta de ordenação. Imagine buscar o quanto você conseguir, de exemplos afins.

Observação 02: Em seu livro A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da cultura, (Damásio, 2018) o neurocientista português - estadunidense António Damásio faz uma espécie de resumo de outros dois livros dele, E o cérebro criou o homem, (Damásio, 2011) e O mistério da consciência (Damásio, 2000) sobre os nossos sentimentos e a consciência, para então entrar no assunto da formação da cultura com forte influência que os sentimentos exerceram. Para nós bastam as origens biológicas dos sentimentos. Você notará algumas palavras ou expressões estranhas no sentido do contexto ao qual ele se refere, como imagens, formação de imagens, qualia, etc. Aconselho uma pesquisa em IA para quem não estiver acostumado com elas, citando o nome dele, pois assim será mais rápido o entendimento desses termos. As expressões "imperativo homeostático" e "em imagens" serão explicados por mim logo abaixo. Não se precisa, evidentemente, ler os dois livros anteriores e este último desde o início. 

Observação 03: Utilizo o tema deste livro do António Damásio para construir o argumento deste texto e todas as citações serão do último capítulo, o treze, de mesmo nome que o livro. 

Damásio expressa uma surpresa e uma estranheza como ele mesmo diz literalmente sobre fatos biológicos relacionados aos sociais, que coloco integralmente abaixo. 

 

O título deste livro foi sugerido por dois fatos. O primeiro é que, 100 milhões de anos atrás, algumas espécies de insetos já haviam adquirido uma coleção de comportamentos, práticas e instrumentos sociais que podem, apropriadamente, intitular-se culturais quando comparados a seus análogos sociais humanos. O segundo fato é que, em um tempo ainda mais remoto, muito provavelmente há vários bilhões de anos, organismos unicelulares também apresentavam comportamentos sociais cujas linhas gerais condizem com aspectos de comportamentos socioculturais humanos. 

Esses fatos certamente contradizem uma noção convencional: a de que algo tão complexo como comportamentos sociais capazes de melhorar a gestão da vida só poderia ter surgido da mente de organismos evoluídos, não necessariamente humanos, mas complexos o bastante e suficientemente próximos dos humanos para engendrar o refinamento necessário. As características sociais sobre as quais escrevo apareceram nos primórdios da história da vida, são abundantes na biosfera e não precisaram esperar o surgimento na Terra de alguma coisa parecida com o ser humano. Isso é verdadeiramente estranho, inesperado, para dizer o mínimo. 

Um exame mais atento revela detalhes por trás desses fatos fascinantes, por exemplo, comportamentos cooperativos bem-sucedidos do tipo que tendemos a associar, e com razão, à sabedoria e maturidade no ser humano. No entanto, estratégias cooperativas não precisaram esperar que surgissem mentes sábias e maduras. Estratégias desse tipo possivelmente são tão antigas quanto a própria vida e nunca se manifestaram com maior brilhantismo do que no conveniente tratado celebrado entre duas bactérias: uma ambiciosa e atrevida, que quis apoderar-se de outra, maior e mais bem estabelecida. A batalha resultou em empate, e a bactéria atrevida tornou-se um satélite cooperativo da bactéria estabelecida. Os eucariotos, células com um núcleo e organelas complexas como as mitocôndrias, provavelmente nasceram dessa maneira, na mesa de negociações da vida. 

As bactérias da história descrita não possuem mente, quanto mais uma mente sábia. A bactéria atrevida opera como se concluísse que "se não pode vencê-la, junte-se a ela". Por sua vez, a estabelecida opera como se pensasse "eu bem que poderia aceitar essa invasora, se ela me oferecesse algo em troca". Mas, obviamente, nenhuma delas pensou [em] coisa alguma. Não houve reflexão mental, consideração manifesta de conhecimentos prévios, astúcia, ardileza, bondade, lisura ou conciliação diplomática. 

A equação do problema foi resolvida cegamente e a partir de dentro do processo, de baixo para cima, como uma opção que, analisando hoje, podemos ver que funcionou bem para os dois lados. No entanto, a solução foi moldada pelos requisitos imperativos da homeostase, e isso não foi mágica, exceto em um sentido poético. Ela consistiu em restrições físicas e químicas concretas aplicadas ao processo da vida, dentro das células, no contexto de suas relações físico-químicas com o meio ambiente [...] O fascinante processo de cooperação não se sustenta sozinho, sem ajuda. As bactérias são capazes de perceber a presença de outras, graças a sondas químicas instaladas em suas membranas, e podem até distinguir as suas parentes das forasteiras por meio da estrutura molecular dessas sondas. Esse é um modesto precursor da nossa percepção baseada em imagens. 

Esses surgimentos em ordem tão estranha revelam o imenso poder da homeostase. O indomável imperativo homeostático, atuando por tentativa e erro, selecionou naturalmente soluções comportamentais disponíveis para vários problemas da gestão da vida. Os organismos vasculharam e avaliaram, impremeditadamente, a física de seu ambiente e a química dentro de suas membranas e, da mesma forma, chegaram a soluções no mínimo adequadas, mas frequentemente boas para a manutenção e a prosperidade da vida. O espantoso é que, quando configurações de problemas comparáveis foram encontradas em outras ocasiões, em outros pontos da emaranhada evolução das formas de vida foram encontradas as mesmas soluções. A tendência a determinadas soluções, a esquemas semelhantes, a algum grau de inevitabilidade, resulta da estrutura e das circunstâncias de organismos vivos e de sua relação com o ambiente, e depende da homeostase de forma assombrosa. (Damásio, 2018, p. 267) 

 

 

Não é de se espantar essa surpresa de Damásio porque parece que funções biológicas simples, de organismos simples, aparecem em organismos muito mais complexos, se repetindo, embora de forma mais complexa, sofisticadas e misturadas no tempo.  

Então Damásio cita o seu principal argumento, um "poder", em todo o livro, o imperativo homeostático. 

 

Homeostático vem de homeostase ou homeostasia, a qual Damásio lamenta ser este termo algo praticamente esquecido por cientistas, não se dando o verdadeiro valor que possui.  

Homeostase é a capacidade de um sistema, e agora se pode falar em sistemas gerais e não apenas orgânicos, de manter variáveis em níveis de valores aceitáveis dentro de certos limites, contribuindo com a própria integridade do sistema ou de partes dele. Um dos exemplos mais simples que posso mencionar é a regulação da temperatura corporal e, sem exageros, não haveria nenhum ser vivo na Terra se não existisse a homeostase. E por isso ele utiliza a palavra imperativo pela importância desse mecanismo.   

 

A expressão “em imagens” pode ser explicada igualmente de maneira simples: se alguém é picado por uma abelha, ele não apenas sente dor e como sabe onde foi, mas faz uma imagem mental consciente da própria dor. Se for uma ponta de uma pedra, dolorida ou não, a imagem será diferente. Isso contribuiu em nossa evolução, como exemplos, deixando-nos cientes em memórias do que dói mais, o que evita, pois a dor é muito intensa sempre, etc.  

 

Para Damásio, as faculdades mentais superiores mais estranhas surgidas em ordem diversa são os sentimentos e a consciência. Poderíamos imaginar, sem sombra de dúvidas, que elas partiram de sistemas em seres complexos, se não em nós humanos, tardiamente na história da evolução. Não é bem assim.  

Cientistas e filósofos citam os córtices cerebrais, estruturas recentes nos cérebros humanos, como os responsáveis por este empreendimento. Eles são regiões do cérebro envolvidas em funções importantes como percepção sensorial, pensamento, memória e tomada de decisões, desempenhando um papel crucial na complexidade das capacidades cognitivas humanas. A subjetividade e o problema dos qualia entram neste assunto. 

Na realidade, como diz Damásio (2018), "núcleos do tronco encefálico e do telencéfalo, todos localizados em nível inferior ao córtex cerebral, são as estruturas cruciais para sustentar os sentimentos e, por extensão, os qualia, que são parte da nossa compreensão da consciência" (p. 271). 

 

Veja mais duas citações dele: "sentimento e subjetividade são faculdades antigas e não dependeram do complexo córtex cerebral dos vertebrados superiores, quanto mais dos humanos, para fazer sua estreia" (Damásio, 2018, pg. 272). E: 

 

 

Em resumo, a construção daquilo que se tornou para nós os sentimentos e a consciência aconteceram de modo gradual, incremental, mas irregular, em linhas separadas da história evolucionária. O fato de podermos encontrar tanta coisa em comum nos comportamentos sociais e afetivos de organismos unicelulares, esponjas e hidras, cefalópodes e mamíferos sugere uma raiz comum para os problemas da regulação da vida em diferentes seres e também uma solução comum a todos: obedecer ao imperativo homeostático. (Damásio, 2018, p. 273) 

 

 

Existem mais exemplos no capítulo treze do livro de Damásio, mas escolhi apenas estes para o texto não ficar tão grande. 

 

Ao mencionar a consciência na citação acima, lembro a você leitor, que ela não é algo do tipo "eu sou eu porque sou" e sim "eu sou eu porque sou e sinto quem sou". Pois bem, razão e sentimentos se fundem quando você olha para dentro de si percebendo e sentindo quem é você. Ela não existiria possuindo apenas uma destas propriedades. Quer dizer, para existir a consciência deve-se ter razão e sentimentos, mas eles surgiram "de modo gradual, incremental, mas irregular em linhas separadas da história evolucionária". 

 

O meu argumento deste texto reside nos exemplos do capítulo treze do livro do Damásio, os quais selecionei aqueles que achei bem relevantes, os comportamentos sociais dos  seres vivos por ele descrito, e, especificamente este último, a formação irregular, descontínua, de duas bases que são das mais importantes do cérebro humano, sentimentos e consciência. Por consequência, dá para imaginar o quão é grande o número de situações semelhantes em nossos corpos e nos outros seres vivos. 

Conforme eu disse na “Observação 01”, um criador, inteligente, projetista, designer, etc., não formaria indivíduos dos mais simples aos mais complexos, com partes, funções, propriedades etc., tão distantes na história da própria vida, com tamanha falta de ordenação. Imagine buscar o quanto você conseguir, de exemplos afins. 

 

António Damásio escreveu este livro na intenção de mostrar como os sentimentos foram importantes para a cultura humana, e, ao resumir de forma brilhante os assuntos dos sentimentos e organismos, vi uma possibilidade de escrever este texto questionando a existência dos seres vivos e dos humanos a partir de um criador inteligente. 

 

 

Referências 

Damásio, A. (2000). O Mistério da Consciência. São Paulo: Companhia das Letras. 

Damásio, A. (2011). E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das Letras. 

Damásio, A. (2018). A estranha ordem das coisas: as origens biológicas dos sentimentos e da Cultura. São Paulo: Companhia das Letras.

sábado, 24 de março de 2018

Uma interpretação minha sobre resultados experiências de Andrew Newberg - Atualizado

Escrito em: 24/03/2018. 

Atualizado em: 19/08/2025 

 

Introdução 

 

Este artigo foi escrito baseado na página de pesquisa do site < http://andrewnewberg.com/research > do neurocientista estadunidense Andrew Newberg (1966-), sendo resultado de suas experiências com o psiquiatra e antropólogo também estadunidense Eugene d'Aquili (1940-1998), e de um artigo de Newberg e colaboradores com as devidas referências. Não são muitas as informações contidas no site de Newberg, mas, além de importantes na neurociência, são também famosas porque descrevem alguns resultados e ideias dele sobre monges budistas tibetanos e freiras franciscanas, meditando e orando, respectivamente, sendo os cérebros escaneados pelo equipamento eletrônico sofisticado SPECT (tomografia computadorizada por emissão de fóton único). Faço analogias com o que eu havia escrito e escrevo nos meus blogs sobre o relativismo religioso, as crenças e as religiões, para os quais eu deixei maiores detalhes destes assuntos nas notas um e dois.  

 

O artigo 

 

Uma das razões por que escrevi e escrevo sobre este assunto é devido a minha sempre vontade de analisar o ser humano como ele é, sua natureza, para depois analisá-lo com respeito às influências do meio ambiente social no qual vive. As experiências de Andrew Newberg com monges budistas e freiras católicas confirmaram minhas expectativas sobre o relativismo religioso. * 

Andrew Newberg, com todas as experiências que fez, cunhou o termo neuroteologia, uma nova disciplina, um ramo da neurociência a se estudar o que acontece com o cérebro quando das experiências religiosas e meditações.  

 

No item da página no site de Newberg "Why do we believe what we believe?" (Por que acreditamos no que acreditamos?), é dito: "[...] nossas crenças começam a se desenvolver no momento em que nascemos e somos pré-programados para acreditar em certos aspectos. No entanto, essas formas são moldadas por tudo o que pensamos, sentimos e experimentamos ao longo da nossa vida [...]". A educação das crianças pelos pais e a influência dos parentes e amigos, ou seja, o meio ambiente social, termo que uso muito, influencia nas crenças que as crianças, salvo exceções, levarão para o resto das vidas delas. São os poderosos valores religiosos passados a nós como verdades absolutas da religião na qual, principalmente os nossos pais, sendo adeptos, passaram para nós. No Cristianismo: Deus, Bíblia, Os Dez Mandamentos (que possui até regras de condutas sociais como "não roubarás", "não matarás", etc.), a oração "O Pai Nosso", a oração "Ave Maria" etc. São valores muito intensos, os quais, quando evocados, levarão as pessoas a estados mentais também intensos, percebendo-se pelas experiências de Newberg, modificações em estruturas e/ou funcionais em áreas cerebrais, a neuroplasticidade. (1)  

 

Ainda no mesmo item anterior você poderá ler: "[...], mas também podemos ter crenças sobre [o] significado e propósito na vida, sobre religião e sobre as profundas complexidades do universo. Como nossas crenças são tão importantes para nossa sobrevivência, temos uma tendência a manter essas crenças muito fortemente, mesmo quando apresentadas com opiniões ou fatos opostos [...]". E aqui está um dos maiores argumentos das minhas ideias na qual eu digo da importância para nós seres humanos, da época em que a consciência nos apareceu e mostrou, junto a nossa inteligência, o quão difícil seria entender questões muito complexas e aterradoras para um ser se ele não acreditasse em nada e que menciono em vários artigos meus: "qual o sentido da vida?", "para onde vamos após a morte?", "quem somos nós?", "quem nos criou em primeiro lugar? (pois nos deparávamos com o fato de mulheres gerando filhos e quem haveria gerado a primeira mulher?)", "existe vida após a morte?", "existe o bem, mas também o mal, e por quê?", etc. Questões essas podendo levar a desequilíbrios emocionais aos primeiros homens, repito, inteligentes e conscientes de si e do mundo que os rodeavam, as quais a nossa espécie poderia perecer por não poder levar uma vida plenamente quanto aos fatores indispensáveis à perpetuação como, por exemplo, a reprodução.  

 

Então os nossos valores religiosos, nossas religiões, estariam ligadas à evolução humana? Sim, como é mencionado no item "Are we ‘hard-wired’ for God?” (Somos ‘ligação’, ‘fio’, para Deus?): "[...] No entanto, o que podemos dizer é que o cérebro tem duas funções primárias que podem ser consideradas de uma perspectiva biológica ou evolutiva. Essas duas funções são automanutenção e auto transcendência. O cérebro realiza essas duas funções ao longo de nossas vidas. Acontece que a religião também realiza essas duas funções. Então, do ponto de vista do cérebro, a religião é uma ferramenta maravilhosa porque ela ajuda o cérebro a desempenhar suas funções primárias [...]". (2)  

 

Newberg constatou, durante a meditação dos monges, o seguinte fato descrito no item "How do meditation and prayer change our brains?" (Como a meditação e a oração mudam nossos cérebros?): "[...] quando escaneamos os cérebros dos meditadores budistas tibetanos, encontramos diminuição da atividade no lobo parietal durante a meditação [...] esta área do cérebro é responsável por nos dar uma sensação de nossa orientação no espaço e no tempo. Nós levantamos a hipótese de que o bloqueio de todas as entradas sensoriais e cognitivas nesta área durante a meditação está associado à sensação de não espaço e sem tempo tão frequentemente descrito na meditação [...]". 

 

Os budistas acreditam em uma lei de interdependência entre todas as coisas no Universo, na Terra. (3) Nos estados mentais produzidos nos monges, eles se sentiram em comunhão com o meio ambiente, não havendo espaço separando-os desse próprio meio. 

 

Vince Rause foi colaborador de Andrew Newberg e Eugene d'Aquili para escrever o livro "Why God Won't Go Away" (Por que Deus não Vai Embora?), sem tradução ao português. Na verdade, ele foi responsável de passar de forma mais simples as palavras, expressões etc., dos outros dois para o público mais leigo. Ele almoçou com Newberg quando este explicou basicamente sobre as pesquisas e resultados que levariam ao livro e relatou os principais pontos da conversa para o Los Angeles Times, em uma edição de 15/07/2001. (4) Em suas palavras: 

"Nos experimentos, Newberg e D'Aquili usaram uma tecnologia chamada varredura SPECT para mapear os cérebros de vários budistas tibetanos enquanto mergulhavam em estados meditativos. Mais tarde, eles fizeram o mesmo com as freiras franciscanas que estavam engajadas em oração profunda e contemplativa. As varreduras fotografaram níveis de atividade neural no cérebro de cada sujeito quando essa pessoa atingiu um pico espiritual intenso. Os budistas normalmente descreviam esse momento como uma fusão em uma unidade maior e uma sensação de perder o eu. Os franciscanos descreveram isso como uma sensação de um eu mais profundo e verdadeiro sendo atraído para a unidade com Deus. Quando estudaram os exames, a atenção de Newberg e D'Aquili foi atraída para um pedaço do lobo parietal do cérebro que eles chamaram de área de associação de orientação. A área é responsável por definir os limites do eu físico e por gerar as percepções do espaço no qual esse "eu" pode ser orientado. Em termos mais simples, traça a linha entre o eu e o resto da existência. Esta é uma tarefa de complexidade impressionante, que requer um fluxo constante de informações neurais que fluem dos sentidos. O que os exames revelaram, no entanto, foi que nos momentos de pico de oração e meditação, o fluxo de impulsos neurais para o lobo parietal era drasticamente reduzido [...] O que Newberg e D'Aquili haviam capturado, ao que parecia, eram instantâneos do cérebro se aproximando de um estado de transcendência mística, que todas as religiões conhecidas descreveram, em vários termos, como a mais profunda de todas as experiências espirituais. Os budistas chamam isso de ‘unicidade’.  É a ‘união mística’ com Deus descrito pelos santos católicos. Para os hindus, é a união do ‘Último’ [final, último, derradeiro, definitivo, irrevogável] com ‘Atman’ [a alma, espírito ou sopro de vida], respectivamente, ‘Brahman-Atman’, e para os místicos islâmicos se reflete nos conceitos de aniquilação e renascimento (‘fana’ e ‘baqa’), que levam, através da entrega espiritual, a uma união íntima com Deus". Diga-se, de passagem, melhor descrito mais abaixo, Deus é o mesmo para cristãos e muçulmanos, e Brahman-Atman não se trata do deus do Cristianismo. Segundo o mestrando em Metafísica Danillo Camillo César, em 2020, pela Universidade de Brasília (UnB), (5), com respeito à antiga filosofia indiana, o Bramanismo, a base, a coluna principal desta cultura milenar onde hoje é a Índia e regiões próximas, e que hoje é chamado de Hinduísmo, é imprescindível o estabelecimento, em qualquer discussão sobre o Bramanismo, dos conceitos de Brahman e Atman, para se investigar a realidade.  

 

Veja que os monges e as freiras tiveram a mesma área cerebral afetada, mas as interpretações daquilo que sentiram foram de acordo com os próprios valores religiosos (das freiras) e dos ensinamentos de Buda (dos budistas)! Com tudo aquilo que aprenderam e que se tornaram valores religiosos absolutos e de ensinamentos para eles, inclusive sendo uma grande evidência do relativismo religioso. Nenhum deles interpretou como valores religiosos de outras religiões ou crenças, ou ainda que seus sentimentos e emoções, pelas experiências, não estavam de acordo com as próprias crenças desacreditando as experiências. Isto para mim faz parte do relativismo religioso, em que cada um considera os seus valores como absolutos, não acreditando e até desprezando os valores das outras religiões, mas, na realidade, são relativos. Se Deus fosse absoluto, a Verdade Absoluta, por que Ele não apareceria nos comentários dos budistas? E por que as freiras pensaram no Deus cristão sem citar nenhum outro valor religioso de outra religião? (6) Ele estaria mostrando ao mundo que existem realmente muitos deuses e entidades diferentes, todos ao mesmo tempo!  

 

Ele chegou a escrever um artigo, com outros dois cientistas, intitulado "Comparison of Different Measures of Religiousness and Spirituality: Implications for Neurotheological Research" (Comparação de Diferentes Medidas de Religiosidade e Espiritualidade: Implicações para a Pesquisa Neuroteológica) (7), em 2019, com a finalidade, segundo eles mesmos de: "[...] revelar uma variedade de dados interessantes sobre aspectos subjetivos de crenças religiosas e espirituais que poderiam ser utilizados para desenvolver estudos futuros de tais crenças, bem como avançar estudos neuroteológicos explorando a conexão entre os processos cerebrais e o emocional, elementos cognitivos e experienciais dos fenômenos religiosos e espirituais [...]". Eles compararam vários questionários [com pessoas de diferentes religiões] subjetivos, "avaliando dimensões neuropsicológicas da religiosidade", como disseram. Também pelo fato da neuroteologia ser de caráter multidisciplinar e, portanto, querer se buscar metodologias eficientes, poderosas, para este "campo distinto de estudos que incorpora ideias filosóficas e teológicas, crenças e práticas religiosas e espirituais, tópicos sobre a mente e a consciência humanas e aspectos relacionados à saúde e bem-estar humanos". 

 

Basicamente é isto, mas algumas das frases e métodos deles me chamaram a atenção. Irei até enumerá-los a fim de maior clareza: 

1 - Como é descrito no artigo: "A identificação religiosa foi a seguinte: 34 católicos, 60 protestantes, 33 outros cristãos, 15 judeus, 12 muçulmanos, 17 pagão-terrestres, 98 ateus e 96 que se identificaram como de espiritualidades diferentes". Somando os católicos, protestantes, outros cristãos, judeus, muçulmanos, e, dos 96 de espiritualidades diferentes, não significando que dentre estes não há um sequer que não acredita em Deus, a grande maioria são de pessoas crentes em Deus. Então, sobre o principal valor religioso, um deus, se teria certamente respostas, crenças, valores etc., no deus cristão; 

2 - O primeiro resultado é relatado assim: "Das pessoas pesquisadas que afirmaram estar praticando uma religião atualmente, 84% responderam que acreditavam em Deus, 11% responderam que não acreditavam em Deus e 5% não responderam". Pelo item um, este resultado é óbvio pois as pessoas são em grande maioria crentes em Deus; 

3 - O segundo resultado diz: "Esta é uma descoberta intrigante, pois as pessoas que praticam uma religião acreditam em Deus [...]". Por que intrigante se católicos, protestantes, "outros cristãos", judeus e muçulmanos, possuem Deus como o maior valor religioso? Nenhum destes seriam adeptos de suas religiões se não acreditassem em Deus. Isto é óbvio. 

4 - Houve resultados gerais que comento dois: "[...] e pessoas que acreditam em Deus que não praticam religião [...]". Conheço muitas pessoas assim; é muito comum, inclusive elas respeitam e muito as práticas cristãs, e, eventualmente rezam ou realizam preces; 

5 - Eles chegaram também em duas porcentagens fáceis de entender: "[...] Das pessoas que atualmente praticam o Budismo, 30% responderam que acreditam em Deus, e dos indivíduos que praticam filosofias seculares, 50% responderam que acreditam em Deus [...]". Influência dos meios nos quais vivem, principalmente se for aos EUA ou em outros países ocidentais. Embora este resultado não seja mencionado onde eles vivem, provavelmente é nos Estados Unidos, pois não precisariam ir buscar em muitos lugares do planeta para tanto, inclusive para diminuir custos; 

6 - Por outro lado, deixei esta por último: "[...] Descobertas significativas foram que 100% dos protestantes e muçulmanos praticantes afirmaram que acreditavam em Deus [...]". Ora, protestantes são cristãos e os muçulmanos acreditam em Deus, o mesmo do Cristianismo, porque a primeira condição essencial, indispensável, para ser um protestante ou um muçulmano, é acreditar em Deus! Caso contrário essas pessoas não pertenceriam a essas religiões. Evidente a diferença entre estas duas religiões em outras crenças como, por exemplo, a respeito de Cristo, o qual Ele é um messias no Cristianismo, filho de Deus, e apenas um profeta em nível terreno, sendo Maomé a principal figura do Islamismo, ao qual o anjo Gabriel lhe passou versos do próprio Deus, resultando mais tarde no Alcorão, o livro sagrado do Islão. 

 

Este meu artigo é, evidentemente, sério, mas, Newberg, que me perdoe você leitor, colocar uma informação assim tão óbvia em um artigo de nível mundial é uma palhaçada! Seria apenas uma informação comum, trivial, a ser apenas, talvez, arquivada. 

 

Andrew Newberg se concentrou apenas na religião cristã, nos valores cristãos, desde as experiências com as freiras, sendo os budistas praticantes de meditações, com um ou outro que acredita em Deus, mas também podem acreditar em outros deuses como aqueles do Hinduísmo, e nesses estudos relatados nos primeiros parágrafos acima, direcionaram claramente para os valores do Cristianismo. Ele se tornou um cientista muito famoso, rico, escreveu dez livros e mais de 200 artigos sobre as suas pesquisas, ganhou muito dinheiro inclusive como palestrante. Sua carreira seria arruinada se apresentasse ao mundo resultados diversos com religiosos diferentes relatando contatos, sensações, com deuses diferentes de Deus.


Vince Rause disse sobre o Hinduísmo no depoimento ao Los Angeles Times e até hoje não se fez experiências com eles e acredito que nunca farão. Pelo menos Andrew Newberg. Talvez Rause levou uma bronca dele pelo fato de comentar da também união com Brahman-Atman e o que existe em todas as religiões com a frase "[...] O que Newberg e D'Aquili haviam capturado, ao que parecia, eram instantâneos do cérebro se aproximando de um estado de transcendência mística, que todas as religiões conhecidas descreveram, em vários termos, como a mais profunda de todas as experiências espirituais [...]". Brahman-Atman é um "conceito" bem diferente, pelo menos em grande parte, do Deus cristão, quer dizer, hinduístas nas experiências de Newberg não mencionariam algo exatamente como "comunhão com Deus".  

 

Newberg sabe muito bem da importância dos valores religiosos e das religiões, como qualquer pessoa, diferentes entre si com alguns aspectos iguais ou parecidos, para os seres humanos de todas as épocas e locais.

Colocou a ambição pessoal na frente do desenvolvimento da ciência.


P. S.: 19/08/2025 

 

Vejam o vídeo com o link depois deste texto: 

 

Um médico relatando o que acontece com uma região do cérebro, o lobo pré-frontal, durante orações. Há um aumento do tamanho em oito semanas, a neuroplasticidade, mas que não citaram no vídeo. Pois bem, ele fala no "ponto de Deus" no cérebro, "uma chave de ignição que Deus deixou ali". Um entrevistador disse " ... Deus já colocou isso inato no ser humano." 

 

Na verdade, o médico citou experiências do neurocientista estadunidense Andrew Newberg conforme o tema do texto.  

Ninguém no vídeo se referiu às outras religiões ou outros deuses e entidades sobrenaturais. E se colocassem hinduístas, xintoístas japoneses, tauistas etc., nessas experiências? Seria o "ponto de Deus" cristão? Acredito, e sei que qualquer um acreditaria que cada pessoa dessas religiões apontariam o lobo pré-frontal como tendo o "ponto dos deuses das próprias religiões"... Nunca seria o "ponto de Deus" pois nenhum outro acima é cristão, pertencente ao Cristianismo., apenas o médico e os dois entrevistadores. 

 

 

 

Nota

 

(*) No relativismo religioso eu considero as diferenças entre as religiões como fundamental para entendê-lo. Veja a referência (8). 

O relativismo religioso diz haver apenas uma religião verdadeira entre todas as outras. Como pode tamanha pretensão se se as outras não fossem verdadeiras, os adeptos abandonaram a todas por não serem eficientes, benéficas a si mesmas? Simplesmente haveria uma tendência a desaparecer. Acredito nisso! Uma pessoa acredita na própria religião e nos seus valores religiosos como absolutos, corretos em relação às outras, sendo essas outras religiões também crentes da mesma maneira, ou seja, na realidade, é tudo relativo. Simplificando, cada religião se acha a correta. Existe somente de absoluto no ser humano, desde quando nasce, a capacidade de acreditar, possuir fé, mas, em quê? Naquilo posteriormente ensinados como valores religiosos em seu meio ambiente social. Para cada povo, em todo lugar e época, criaram-se valores religiosos e passaram de pais para filhos, nos próprios ambientes sociais, ensinamentos nos quais eram absolutos para eles. O meio ambiente social é tudo aquilo influenciando o desenvolvimento de uma criança, os pais, amigos, parentes, escola etc. A religião faz parte e desde muito cedo, além de ensinamentos pelas pessoas, ela irá se deparar com inúmeras situações nos quais os valores religiosos serão mencionados, reforçados e cobrados por outras pessoas. Por exemplo, ao desdenhar da oração "Pai Nosso" do Cristianismo, a ser pronunciado em classe, um colega poderá dizer: "Isso é pecado. Fica quieto se não quiser orar". Valores religiosos podem ser, e são, muito diferentes entre si, como, por exemplo, Ganesha, o deus hindu com corpo de homem e cabeça de elefante, o qual os hindus o reverenciam e muito pois além de ser o deus da remoção de obstáculos, em qualquer tarefa ou trabalho, é aquele ao qual se reza para a prosperidade material. Muitos outros atributos lhe são atribuídos e seria cansativo ao leitor eu colocá-los aqui. Basta essa breve descrição para notarmos o quanto existem diferenças entre as religiões: compare com o Cristianismo. As práticas religiosas ou praticar aquilo nos dado como valores religiosos, como orar, entoar cantos etc., são atividades mexendo com o nosso psicológico porque os valores estão em nossas memórias e carregam consigo uma grande carga de emoções e sentimentos devidos, principalmente ao mencionado antes por mim, sobre tantos anos de educação religiosa. Imagine então você podendo visualizar a atividade cerebral de uma pessoa durante uma oração, ou várias, se concentrando nos próprios valores religiosos. Depois você analisa a atividade do cérebro de outra, mas de uma religião diferente ou crenças diferentes. Seria razoável supor, dependendo dos estados mentais nos quais essas pessoas chegariam, ao fato de interpretarem como sinais, evidências e até realidades sobre suas crenças? Tenho certeza que sim. 

 

No primeiro livro de Andrew Newberg, o já citado "Por que Deus não vai embora", há um, "porém". Deus vai embora sim: basta se parar o ensinamento do Cristianismo no mundo todo, acabar com todos os livros, citações sobre Ele, estudos etc., não se falar mais nele, que as gerações futuras nem saberão e não sentirão nada a Ele relacionado. 


Referências 

 

(1) – Argos Arruda Pinto. O meio ambiente social na formação das crenças religiosas. 2013. Disponível em: < http://orelativismodasreligioes.blogspot.com.br/.../o-mei... >. Acesso em: 19 ago 2025; 

e 

Argos Arruda Pinto. Neurociência e como se formam os valores religiosos em nossos cérebros. 2017. Disponível em: < http://argosarrudapinto.blogspot.com.br/.../neurociencia... >. Acesso em: 19 ago 2025 

(2) – Argos Arruda Pinto. Consciência, amor-próprio, fé e transcendência: a moderna Teoria da Evolução. 2012. Disponível em: < https://orelativismodasreligioes.blogspot.com/2019/10/consciencia-amor-proprio-fe-e.html >. Acesso em: 19 ago 2025 

(3) - Budismo. Nova Enciclopédia Ilustrada Folha. São Paulo. Editora Folha de São Paulo. 1996. 2 v.  

(4) - Vince Rause. The Biology of Belief. Los Angeles Times. 2001. Disponível em: < https://www.latimes.com/.../la-xpm-2001-jul-15-tm-22410... >. Acesso em: 19 ago 2025. 

(5) - Camelo César, D. (2020). ÄTMAN E BRAHMAN: FUNDAMENTOS DA REALIDADE. PÓLEMOS – Revista De Estudantes De Filosofia Da Universidade De Brasília, 9(18), 331–347. Disponível em: < https://doi.org/10.26512/pl.v9i18.29871 >. Acesso em: 19 ago 2025. 

e 

(6) - Argos Arruda Pinto. Por que Deus não "nasce" junto nas cabeças das pessoas? 2015. Disponível em: < https://orelativismodasreligioes.blogspot.com/.../por-que... >. Acesso em: 19 ago 2025. 

(7) - Andrew Newberg, Nancy Wintering, Mark Waldman. Comparison of Different Measures of Religiousness and Spirituality: Implications for Neurotheological Research. Religions 2019, 10(11), 637. Disponível em: < https://www.mdpi.com/2077-1444/10/11/637 >. Acesso em: 19 ago 2025. 

(8) - Argos Arruda Pinto. O relativismo religioso como eu o vejo: as muitas diferenças entre as religiões. Disponível em: < https://orelativismodasreligioes.blogspot.com/ >. Acesso em: 19 ago 2025.