Mecanicamente, a expressão acima é uma repetição, mas poeticamente e filosoficamente é um paradoxo expressivo. É uma frase inteligente que usa a própria limitação das palavras para falar sobre algo que não tem limites.
Em uma redação escolar ou acadêmica comum seria apontado como um vício de linguagem; especificamente um eco ou cacofonia. No campo da literatura, da publicidade e da filosofia, essa frase não é um erro: ela é uma construção intencional rica em significado.
Poderia ser: ‘A nossa capacidade mental de criar cenários tem um potencial tão infinito que supera aquilo que a nossa mente consciente consegue sequer supor ou prever.’
Além da mente consciente… aqui entra o sobrenatural e você pode criar o que quiser. E assim foi a história das crenças.
Se houvesse apenas um deus e suas entidades espirituais em nosso universo, eles pertenceriam às pessoas em todo o planeta e em todas as épocas. Em dado momento da vida delas, eles ‘apareceriam’ em suas mentes, mas, algo nada comentado por aí é que são ensinados, passados às crianças quando começam a entender sobre o mundo, suas vidas, seus familiares etc. E isso em todas as partes, países, povos, de toda a Terra. Dá para se deduzir claramente que alguém começou com as crenças, outros aperfeiçoaram e assim por diante. Esta é a base central deste texto: o homem cria deuses.
Dois antropólogos estadunidenses, Benjamin Grant Purzycki e Richard Sosis, possuem um excelente trabalho (Purzycki & Sosis, 2022) de nome Teoria dos Conceitos Minimamente Contraintuitivos (MCI).
Eles demonstram cientificamente que, para que um monstro, deus ou criatura fantástica faça sentido para a nossa mente, ele precisa manter 90% das características do mundo concreto, forma humana, biologia animal etc., e alterar apenas 10%: voar, ser invisível, cuspir fogo etc. Dito de outro modo, mesmo quando criamos o sobrenatural, nossa imaginação opera necessariamente por meio da reconfiguração de elementos do mundo físico. Um dragão é a colagem de uma serpente, asas de morcego e o fogo da natureza; um fantasma é o contorno humano sem a opacidade da carne. A mente nunca cria a partir do zero absoluto; ela desconstrói a realidade para remontá-la como mágica.
Isso seria uma limitação da imaginação humana?
Para esses cientistas cognitivos da religião e da evolução isso não é uma limitação, mas sim a própria condição de existência da criatividade. Para eles, se a imaginação não estivesse ancorada no mundo concreto, ela não seria livre; ela seria apenas ruído estático, incapaz de gerar qualquer sentido.
Nascemos com expectativas automáticas sobre o mundo, divididas em categorias que chamamos de ontologias intuitivas:
1.1. Física intuitiva: sabemos que objetos sólidos não atravessam paredes e caem se forem soltos;
1.2. Biologia intuitiva: sabemos que seres vivos nascem, respiram, precisam de alimento e morrem;
1.3. Psicologia intuitiva: sabemos que outros seres têm mentes, desejos, crenças e intenções.
Se tentássemos criar algo a partir do ‘zero’ — violando todas essas regras ao mesmo tempo —, o conceito seria cognitivamente intratável. Imagine um ser que não ocupa lugar no espaço, não tem tempo, não tem forma, não tem intenção, não se move e não tem história. O que você imaginou? Nada. O cérebro sofre um crash porque não tem matéria-prima para processar.
No livro Our Gods (2022), Purzycki e Sosis exploram como o sobrenatural se aproveita dessa estrutura. O segredo da imaginação humana para criar deuses, monstros e mitos não é ignorar a realidade, mas usar o mundo concreto como um Cavalo de Troia.
A mente pega uma categoria inteira do mundo concreto: por exemplo, uma pessoa, com todas as suas regras físicas e psicológicas, e faz uma moderação cirúrgica violando apenas uma ou duas propriedades, como, ela pode atravessar paredes e sabe o que estou pensando.
Para a ciência cognitiva, o sobrenatural é apenas o natural com uma leve mutação. Um fantasma mantém a psicologia humana, sente raiva, quer vingança, mas viola a física, é intangível. Se ele violasse a física e a psicologia, se não tivesse sentimentos nem intenções, nós perderíamos o interesse nele imediatamente.
Para entender por que isso não limita a imaginação, pense no alfabeto. Temos um número restrito de letras, o mundo concreto, mas a combinação delas permite criar infinitas bibliotecas de Alexandria.
A imaginação humana não é limitada porque ela trabalha por recombinação combinatória. Desconstruir a realidade e remontá-la permite que a mente humana crie infinitos mundos fantásticos. A matéria-prima é finita, mas os arranjos são infinitos.
Se a mente pudesse criar a partir de um zero absoluto, as nossas criações seriam incompreensíveis para os outros e inúteis para nós mesmos. Portanto, os cientistas não enxergam essa dependência do concreto como uma falha. É justamente porque a nossa imaginação está firmemente ancorada nas leis do mundo real que ela consegue esticar essas leis até o limite, criando deuses, poesias e universos de ficção que nos emocionam, fazem sentido e sobrevivem através das gerações.
Mas e no caso do Deus cristão, considerado onipotente, onipresente, onisciente e amorfo, como fica?
À primeira vista, o Deus cristão — sendo onipotente, onipresente, onisciente e amorfo, sem forma física — parece implodir completamente a teoria de que a nossa imaginação precisa de âncoras no mundo concreto. Afinal, como algo pode ser uma leve mutação do natural se ele quebra praticamente todas as regras da física e da biologia? É um desafio explicar como uma divindade totalmente abstrata e infinita consegue ser assimilada por uma mente humana que, biologicamente, depende do mundo físico e concreto para conseguir imaginar qualquer coisa.
Para resolver esse mistério, esse paradoxo, os cientistas cognitivos, especialmente Justin Barrett e Pascal Boyer, descobriram um fenômeno fascinante chamado ‘Correção Teológica’ versus ‘Representação Cognitiva’ (Barrett, 1999, 2021; Boyer, 2001). A explicação de como a nossa mente lida com isso se divide em três pontos centrais:
1. O conceito intelectual vs. O conceito prático
Existe uma diferença brutal entre o que as pessoas dizem que acreditam quando estão filosofando, a teologia, e como o cérebro delas processa essa crença no milissegundo do dia a dia, a cognição.
Quando um teólogo ou um fiel para refletir, ele afirma categoricamente: ‘Deus é amorfo, não ocupa lugar no espaço e sabe o passado, o presente e o futuro simultaneamente’, Isso é um conceito abstrato de segunda ordem, aprendido culturalmente.
No entanto, quando esse mesmo fiel vai rezar ou pensar em Deus agindo no mundo, o cérebro dele desliga o modo abstrato e liga o modo intuitivo. Para a imaginação conseguir operar, ela traz Deus imediatamente para a categoria concreta de pessoa: a psicologia Intuitiva.
2. A âncora na psicologia humana - O agente sem corpo
Mesmo sendo amorfo e infinito, o Deus cristão só faz sentido para a mente humana porque ele retém 100% da categoria psicológica de uma pessoa.
2.1. Ele tem vontades: deseja que a humanidade faça o bem;
2.2. Ele tem emoções: rejubila-se com o amor, entristece-se com o pecado;
2.3. Ele tem foco de atenção: escuta uma prece de cada vez, do ponto de vista do fiel;
2.4. Ele possui agência: toma decisões e age na história.
Para a ciência cognitiva, o Deus cristão é imaginado essencialmente como uma mente humana superpotente sem um corpo. A imaginação violou a física, ele é invisível/amorfo. E na biologia, ele não morre/não come, mas manteve a psicologia intocada. Se Deus fosse amorfo e não tivesse mente, desejos, amor e pensamentos, ele seria idêntico ao ‘vácuo quântico’ ou às ‘leis da termodinâmica’ — conceitos que a nossa imaginação não consegue personificar nem adorar emocionalmente.
3. O que dizem os experimentos científicos?
O psicólogo cognitivo Justin Barrett realizou experimentos famosos que provaram essa dupla identidade da mente (Barrett & Keil, 1996).
Ele pedia para pessoas religiosas lerem histórias onde Deus intervinha para salvar alguém. No papel, os participantes afirmavam que Deus era onipresente e onisciente. Porém, quando eram testados sobre a memória da história, os participantes frequentemente cometiam erros intuitivos, assumindo que Deus primeiro ouviu a oração de um menino na Terra, depois processou a informação e então decidiu agir, salvando outra pessoa em outro lugar.
O veredicto da ciência: nosso cérebro não foi projetado para processar a onipresença em tempo real. Nós flagramos nossa imaginação limitando Deus a um fluxo de tempo linear e a uma sequência de pensamentos muito parecida com a nossa, simplesmente porque é a única forma que o nosso cérebro físico tem de processar um agente.
Como fica o mistério, o paradoxo, afinal?
O Deus cristão amorfo e infinito funciona na cultura porque ele opera como um conceito de dois níveis:
Nível teológico e abstrato: onipresente, sem forma, além do tempo;
Nível cognitivo e ancorado no concreto: uma mente com características humanas que está em algum lugar nos ouvindo.
Nível teológico e abstrato: onisciente, sabe tudo ao mesmo tempo;
Nível cognitivo e ancorado no concreto: alguém que tem acesso a todas as informações estratégicas da nossa vida. Uma mente sem limites de memória.
Portanto, a regra se mantém: a teologia pode propor o puramente abstrato, mas para que a imaginação humana consiga se conectar com Deus, criar arte sacra, rezar ou sentir uma emoção religiosa, ela precisa, secretamente, trazer esse Deus de volta para o molde de uma mente humana concreta.
Até que ponto tudo o que foi exposto aqui pode representar tentativas de se criar deuses e entidades espirituais e não que estes existem e passaram aos humanos seus conhecimentos, regras, valores etc., para os humanos seguirem?
Esta é a pergunta central que divide a ciência cognitiva da religião da teologia. Ela toca diretamente na navalha de Ockham: se a mente humana e a evolução cultural possuem todos os mecanismos necessários para projetar, refinar e sustentar a ideia de deuses e espíritos, a existência real dessas entidades torna-se uma hipótese cientificamente redundante.
Explicando o fenômeno de ponta a ponta, a balança inclina-se fortemente para a hipótese da criação humana, de baixo para cima pelas seguintes razões científicas e históricas:
1. A redundância explicativa - O modelo ‘De baixo para cima’
Até o momento, a ciência não encontrou nenhuma lacuna no surgimento das religiões que exija uma intervenção externa, ‘De cima para baixo’, para ser explicada. Tudo o que chamamos de revelação divina pode ser mapeado como um subproduto da nossa própria arquitetura cognitiva:
1.1. A moral não precisa de leis divinas: a antropologia evolucionista demonstra que regras de cooperação, altruísmo recíproco e punição ao egoísmo já existiam em primatas e hominídeos ancestrais antes do surgimento das grandes religiões;
1.2. A projeção da lei: humanos são obcecados por ordem e causalidade. Quando criamos regras sociais para a tribo sobreviver, a nossa imaginação faz o que sempre faz: projeta essa necessidade de ordem para o cosmos. É muito mais eficiente fazer a tribo obedecer a uma regra dizendo ‘O dono do trovão vai te punir se você roubar’ do que dizer ‘Eu vou te punir’. O deus torna-se o fiador invisível do contrato social.
2. O Alinhamento perfeito com a evolução social
Se os deuses fossem entidades reais que transmitiam conhecimentos e valores fixos à humanidade, o formato dessas entidades e suas regras deveriam ser independentes da organização política humana. Mas o que a história e a sociologia mostram é exatamente o oposto: os deuses mudam conforme o sistema econômico e social humano muda. Exemplo: pequenos grupos com caçadores-coletores: espíritos locais, caprichosos, sem interesse em moral universal.
Surgimento da agricultura e cidades gerando grandes impérios e sociedades complexas: grandes deuses, oniscientes, obcecados por vigilância moral e leis estritas.
Em sociedades de caçadores-coletores os espíritos da floresta não se importam se você mentiu para seu irmão, eles querem apenas o respeito aos rituais da caça. Os ‘deuses vigilantes’ - como o Deus abraâmico ou o conceito de Karma só surgem quando as cidades humanas crescem a ponto de precisarmos interagir com estranhos. Para que uma grande civilização não colapse em desconfiança, a cultura humana criou deuses que tudo veem, funcionando como uma polícia psicológica invisível.
3. A contingência geográfica e histórica
Se o conhecimento espiritual fosse uma revelação externa de uma entidade real, seria de se esperar uma convergência universal desses dados. No entanto, os valores, as regras alimentares, as estruturas familiares e os tabus divinos são estritamente condicionados pela geografia e pelas necessidades materiais do povo que os imagina:
Por que o porco é impuro para os povos do deserto do Oriente Médio antigo? A ecologia demonstra que criar porcos em regiões áridas gerava uma competição destrutiva por água e recursos que a comunidade não podia pagar. A proibição divina transformou uma necessidade ecológica e sanitária local em um mandamento eterno.
O contra-argumento teológico - A ‘fiação receptiva’
Para sermos justos com o outro lado da moeda, como os teólogos e filósofos realistas, que acreditam na existência real dessas entidades, respondem a isso?
Eles usam os mesmos dados da ciência cognitiva, mas invertem a seta causal. O argumento deles, conhecido na filosofia da religião como epistemologia reformada, diz o seguinte:
“Se a mente humana evoluiu para ter ferramentas cognitivas, como a busca por agência e mentes invisíveis, que se encaixam perfeitamente na ideia de Deus, isso não prova que inventamos Deus. Prova que o Deus real projetou o processo evolucionário para que nossos cérebros fossem 'fados de fábrica' com o hardware correto para sintonizar a Sua existência."
O Veredito
Embora a ciência não possa provar a inexistência do sobrenatural, já que não se pode provar uma negativa, o modelo de que os humanos criaram os deuses à sua imagem e semelhança cognitiva é o que possui maior poder preditivo e explicativo.
Nós pegamos a nossa psicologia, as nossas dinâmicas de poder familiar, a figura do pai, do rei, do juiz, as nossas necessidades biológicas e as nossas regras sociais, e usamos a nossa imaginação — que é incapaz de criar a partir do nada — para projetar tudo isso na escala do infinito.
Para qualquer pessoa religiosa, seja qual for a religião dela, tudo exposto aqui seria o contrário: Deus criou tudo, deuses de outras religiões criaram tudo; cada uma delas tomando para si a criação de tudo. Mas acredito que os cientistas citados apresentam é difícil de se opor; apenas pelas crenças mesmo porque, enquanto cientistas procuram por respostas, as religiões já as têm (frase de Albert Einstein). Exemplos: Morreu? Deus ou deuses quiseram. Não morreu? Deus ou deuses quiseram. E por aí se vão as crenças pelo mundo; umas parecidas, outras iguais, outras bem diferentes: Deus criou o homem a partir do barro, soprando-lhe a vida, e a mulher de uma costela do homem - Cristianismo. O casal de deuses irmãos Izanagi e Izanami gerou as ilhas do Japão e os deuses que, por sua vez, deram origem aos seres humanos - Xintoísmo. Já no Hinduísmo o universo e os seres humanos passam por ciclos eternos de criação por Brahma, conservação por Vishnu e destruição por Shiva. Que diferença…
Referências
Barrett, J. L., & Keil, F. C. (1996). Conceptualizing a nonnatural entity: Anthropomorphism in God concepts. Cognitive Psychology, 31(3), 219–247. https://doi.org/10.1006/cogp.1996.0017.
Barrett, J. L. (1999). Theological correctness: Cognitive constraint and the study of religion. Method & Theory in the Study of Religion, 11(4), 325–339. https://doi.org/10.1163/157006899X00078.
Barrett, J. L. (2021). Cognitive science of religion: The core questions. Routledge.
Boyer, P. (2001). Religion explained: The evolutionary origins of religious thought. Basic Books.
Purzycki, B. G., & Sosis, R. (2022). Our gods: Religion, cognition, and culture. Routledge.
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