Argos Arruda Pinto

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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O porquê dos nossos sentimentos: por que existem emoções e sentimentos negativos?

Palavras-chave: neurociência, emoção, sentimento, evolução, ódio, raiva, agressividade 

Resumo.  
Sentimentos e emoções serviram a nossa sobrevivência como espécies no planeta pois, como exemplo, o amor, o afeto e o carinho entre pais e filhotes foram e são uma ligação das mais importantes do reino animal, até os pequenos animais adquirirem maturidade para uma vida independente. Mas, e os sentimentos e as emoções negativas? Como estamos vivos hoje se antes da nossa espécie já havia ancestrais com poderosíssimas forças negativas em suas mentes? O que aconteceu e o que acontece? Estariam e estão na contramão da evolução?  Neste artigo eu discorro sobre dois deles, aparentemente desastrosos para quaisquer espécies, e dos mais comuns e intensos, o ódio e a raiva, e mais ainda, com o potencial de levar à agressividade, mas possuindo sim um papel indispensável na evolução se analisados cuidadosamente. A partir do desenvolvimento do sistema nervoso, do mais primitivo ao mais capacitado e complexo, o cérebro humano, mostro como foram fundamentais na preservação das espécies de muitos seres vivos. 

Introdução.  
Nos meus artigos “A base material dos sentimentos”, (1) “A base material dos sentimentos - II” (2), “O porquê dos nossos sentimentos” (3) e “O porquê dos nossos sentimentos - II” (4), também presentes em “Sistemas, teoria da evolução e neurociências”, (5) eu  escrevi sobre os sentimentos positivos como imprescindíveis na perpetuação dos seres humanos na Terra e reconheço a necessidade de se escrever sobre os sentimentos negativos porque também são reais, existem conosco e outros animais desde há muito tempo, e, aparentemente em uma grande contradição, tiveram suas importâncias na evolução. 

Agressividade 

Para começar voltarei no tempo justamente na época do próprio surgimento e desenvolvimento ulterior da vida. 

Imagine um cenário muito antigo, em um lago ou oceano, quando dos primeiros seres vivos unicelulares, com uma substância, uma fonte de calor, etc., ameaçando um grupo desses pequenos seres já providos de movimentos próprios. Alguns deles não só conseguiam perceber o perigo como também reagiam se movendo em direção e sentido opostos ao local dessas ameaças. Os outros simplesmente seriam destruídos por esses fenômenos tão comuns na natureza. 

Percebe-se por aqueles sobreviventes, dois fatores cruciais em suas reações: a percepção da ameaça e todo um sistema a colocar-lhes em movimento a um local seguro. O movimento desses heróis microscópicos reflete uma pequena dose de agressividade perante ao meio ambiente, uma não passividade frente ao perigo, um pequeno, mas verdadeiro embrião de um sistema nervoso a serviço de suas sobrevivências. 

Na alimentação por fagocitose, os pseudópodes da célula agressora englobam o material a ser ingerido. É um processo ativo, demonstrando de forma mais clara esse embrião de sistema nervoso pois há intenção, ataque e captura de uma “presa”, a saber, um simples corpo sólido ou outro ser vivo, mas indispensável à vida de quem o realiza. Imagine então um predador, um organismo multicelular, no qual a sua presa percebe a sua presença e tende a se afastar ou a se defender.  

Um processo desses preservado, aperfeiçoado, por genes, chegou até nós e o fazemos com requintes de crueldade para saborearmos uma boa porção de carne. Veja, bilhões de anos, inúmeras quantidades de predadores, presas, habitats e comportamentos inexistentes hoje ou não, levam a marca implacável da agressividade como denominador comum na sobrevivência das espécies. 

Mas a agressividade se revela de maneira diversa em seres vivos complexos não só com respeito à captura de presas, em ataques dos mais variados modos, etc. Dizendo do comportamento humano, você, ao colocar toda a sua motivação para terminar um trabalho atrasado, podendo até lhe causar a perda do emprego, estará descarregando uma grande dose de agressividade. Uma repreensão verbal a um filho de forma enérgica pois ele acabara de fazer algo errado também é uma agressão, embora diferente pois é de maneira consciente, respeitosa, ensinando-o diferenciar o certo do errado. 

E a agressividade entre pessoas levando à morte ou a danos físicos? Isso sempre existiu e realmente, em sua maioria, é contra a evolução. Mas, simplificando, todas as pessoas não ficam todos os dias se agredindo! Aqui, neste ponto do artigo, deve-se ter cuidado com ideias e colocações pois realmente o ser humano sempre viveu em conflitos e guerras, mas hoje somos mais de sete bilhões habitando a Terra. Outros valores e sentimentos predominaram.  

Raiva 

Uma emoção poderosa, causada por muitos fatores como não atingirmos um objetivo ou necessidade, termos uma contrariedade, não satisfazer um desejo ou termos uma ação frustrada, sentirmos nossos direitos desrespeitados, nos depararmos com injustiças, críticas, ofensas, etc. Nosso dia a dia também acarreta estados de raiva: uma fila demorada, uma piada de mau gosto, um aceno indesejado de alguém no trânsito, etc.  

Apesar de ser uma emoção destrutiva eu pergunto: quem gostaria de passar raiva durante 24 horas? Temos defesas para afastarmos estados de raiva, principalmente a racionalização, a qual, em nossa razão, pode-se determinar se compensa ou não uma ação guiada pela raiva. Mas, como a agressividade, ela existe…  

A mesma questão como na agressividade: ela estaria na contramão da evolução? A resposta também é não. Ela aumenta a energia e a força para um animal abater uma presa reagindo com eficiência a um ataque. Um complemento, uma ajuda na agressividade. E como na repreensão verbal a um filho citado em “agressividade”, você poderá estar com raiva dele, mas a canaliza para o bem-estar da criança. 

Se no modo de vida moderno nós não precisamos abater diretamente um animal como faziam os antigos caçadores coletores, temos muitos estímulos levando-nos à raiva, mas aprendemos a, pelo menos, não a deixar alterar de modo significativo o nosso bem-estar psicológico e dos outros. Uma luta diária. Extravasamos nossa raiva falando de nossos sentimentos... 

Ódio 

De um rancor duradouro até um profundo sentimento de repulsa por alguém, o ódio também parece se localizar na contramão da evolução. Então por que o temos?  

Exemplos de nossos ancestrais em suas vidas primitivas permitem termos uma boa pista para esse aparente paradoxo. Um predador passa próximo a um grupo de humanos e se afasta. Não atacou ninguém, mas todos desconfiam de sua volta. E quando aparece desperta ódio, talvez já presente em muitos da tribo, levando aquelas pessoas a um ataque possivelmente já combinado entre os mais destemidos do grupo.  

O ódio a um inimigo ou a quem represente uma ameaça, poderá deixar uma mãe prestando mais atenção em possíveis perturbações a seus filhotes, ou seja, ele proporcionaria uma série de comportamentos não existindo sem ele na defesa da prole e de si mesma. Um ótimo exemplo de situações como essas é o próprio aprendizado da mãe nesse exemplo. 

Gosto de raciocinar de uma forma, sendo “o pensar ao contrário”: se o ódio, a raiva e a agressão não existissem, quanto não ficaríamos vulneráveis sem eles? Seria possível um ser vivo tão complexo como nós, mas tão puro, ingênuo e passivo?   

Acreditar só no amor ou somente nos sentimentos positivos existindo em animais complexos, com comportamentos complexos, me parece uma grande ingenuidade. O amor tem como oposto a indiferença, mas e o não gostar de algo? Me parece fazer parte da nossa sobrevivência o não gostar de muita coisa chegando realmente ao ódio àquilo perigoso a nós, comuns em quaisquer habitats onde vivemos. 

No plano social o ódio pode aparece entre pessoas que não se gostam ou é o resultado de desavenças, mas, como a raiva, há um certo controle por parte do ser humano para muitas diferenças não os levarem a conflitos desastrosos. Aprendemos a nos controlar, racionalizar como na raiva, percebendo se compensa ou não uma discussão ou uma agressão devido a um sentimento profundo como esse.  

Os seres vivos sempre estiveram em um mundo repleto de estímulos positivos e negativos! Do primeiro exemplo neste texto sobre um unicelular fugindo de uma fonte de calor, denotando uma reação a um estímulo negativo, até uma mãe não gostando nada de um inimigo ou uma ameaça a sua prole, algum animal considerado perigosa para ela, a agressividade, acompanhada por raiva, ódio, etc., se perpetuaram como comportamentos de geração a geração. Não dá para conceber um planeta como o nosso onde sobreviveriam apenas indivíduos com reações benéficas com o ambiente. E note no exemplo da mãe a necessidade de   um sistema nervoso complexo, evoluído de muitas e muitas gerações como são os dos mamíferos. 

Seja lá como eram os primeiros unicelulares em estrutura e comportamento, eles estavam adaptados e procriaram dentro de ambientes com estímulos positivos e negativos reagindo de forma adequada a cada um deles. Conforme o sistema nervoso foi evoluindo, regiões e/ou funções diversas responsáveis pela agressão, raiva e o ódio, foram se perpetuando nos organismos multicelulares. 


Bibliografia: 

1 - Argos (de) Arruda Pinto. A base material dos sentimentos. Cérebro & Mente. 2001.  Disponível em: < http://www.cerebromente.org.br/n12/opiniao/sentimentos.html >.  Acesso em: 11/07/2018. 

2 - Argos (de) Arruda Pinto. A base material dos sentimentos - 02. Cérebro & Mente. 2001. Disponível em: < http://www.cerebromente.org.br/n13/opiniao/material.html >. Acesso em: 11/07/2018. 

3 - Argos (de) Arruda Pinto. O Porquê dos nossos sentimentos. Cérebro & Mente. 2001. Disponível em: < http://www.cerebromente.org.br/n14/opinion/material3.html >. Acesso em: 11/07/2018. 

4 - Argos (de) Arruda Pinto. O Porquê dos nossos Sentimentos - 02. Cérebro & Mente. 2002. Disponível em: < http://www.cerebromente.org.br/n15/opiniao/sentimentos2.html >. Acesso em: 11/07/2018. 

5 - Argos Arruda Pinto. Sistemas, teoria da evolução e neurociências. 2008.  Disponível em: < https://sistemaevolucaoneurociencia.blogspot.com >. Acesso em: 11/07/2018.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Por que existe o amor - A explicação científica é a verdadeira - Parte II

Em meu artigo "Por que existe o amor? A explicação científica é a verdadeira" - http://nepsicoreli.blogspot.com.br/ - eu fui muito objetivo na questão do porquê existe o amor e por isto resolvi escrever esta continuação pois, tenho certeza, muitas pessoas poderiam perguntar ou perguntaram: "Mas o amor é só isto?". Onde está ou onde estão os amores avassaladores de romances e filmes? E aqueles mais reais mas mesmo assim que as pessoas viveram ou vivem em completo êxtase psicológico ou mental, apaixonados pelos (as) parceiros (as) a ponto de, como já até ouvimos falar, de estarem esquecidas de si mesmas? Onde está aquele amor tão profundo e perseguido por muitos?

E aqui se poderia escrever páginas e mais páginas sobre este sentimento tão sublime, ligado a muitos outros, como até hoje se escreveu na literatura e sempre se escreverá, como se contou em histórias, filmes, literatura, entre pessoas de boca a boca, etc.

Mais uma vez a nossa inteligência, consciência, os sentimentos e as emoções são os donos da história.

Se um animal, um cão, sente vontade de beber água e vai até o recipiente da casa para satisfazer essa vontade, ele o faz conscientemente? Não, agiu automaticamente. Mesmo António Damásio já mencionou em "O Mistério da consciência" que os mamíferos possuem alguns segundos de consciência mas ela não é abrangente como a nossa. Talvez alguns segundos de consciência os auxiliem a realizarem comportamentos complexos que nós mesmos às vezes admiramos e dizemos: "Poxa, como é inteligente o meu cão".

E aqui reside a força da consciência: se o amor é o sentimento mais cultuado e admirado, o mais desejado, procurado por nós para vivenciá-lo para as nossas vidas, sendo crucial para formarmos famílias, termos os (as) parceiros (as) a dividirmos tudo, vivermos e construirmos uma vida inteira a dois, por que não tê-lo?

Vivenciamos um grande amor pelo nosso bem-estar, porque queremos ser felizes.

António Damásio cita a procura do bem-estar e da felicidade em "E o cérebro criou o homem",¹ como se fossem os maiores objetivos da nossa sobrevivência justamente porque possuímos consciência. Não somos seres só para comermos, dormimos, bebermos água e reproduzirmos sem utilizarmos o sexo para o nosso bem-estar. Somos mais, conseguimos mais com a consciência no comando. Veja o que ele diz: "Se o cérebro prevaleceu na evolução porque oferecia um maior âmbito para a regulação da vida, o sistema cerebral que levou à mente consciente prevaleceu porque oferecia as mais amplas possibilidades de adaptação e sobrevivência com o tipo de regulação capaz de manter e expandir o bem-estar".²

Falei deste assunto também em "O porquê dos nossos sentimentos – Sobre ideias e conclusões que cheguei antes de António Damásio" - http://sistemaevolucaoneurociencia.blogspot.com.br/2008/01/o-porqu-dos-nossos-sentimentos_28.html.

Então, qual seria o bem-estar gerado por um grande amor? Em que "nível" de felicidade duas pessoas não conseguiriam com isto?

É admirável como a natureza funciona: se você analisar os fenômenos da Física, da Química e da Biologia, e mesmo de todas as outras ciências derivadas destas, verá que eles são "frios".³ Eles acontecem, influem, cessam, continuam, etc., segundo leis que não temos controle e inconscientemente, ou seja, existem por existirem, porque a natureza é do jeito que é. Mas nós, produtos dela própria, possuímos juízos de valores, moral, ética, humanidade... Podemos sentir, perdoamos, zelamos, etc., ou seja, o contrário da "frieza" e da indiferença de como agem os fenômenos científicos comuns, porque são inconscientes.

Aqui você talvez acabe caindo no problema que Damásio denominou "Qualia I": [...] "o conceito de qualia refere-se aos sentimentos que são parte indissociável de qualquer experiência subjetiva..." [...] "Nenhum conjunto de imagens conscientes, independentes do tipo e do assunto, jamais deixa de ser acompanhado por um obediente coro de emoções e consequentes sentimentos". (4)

E o amor é a expressão máxima desses sentimentos.


Notas:

1 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 440 p.

2 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 81.

3 - Pensei pela primeira vez neste assunto assistindo ao filme "O Destino do Poseidon", na produção de 1972, com Gene Hackman, Ernest Borngine, Roddy McDowall e Leslie Nielsen. Nele, um navio de turismo vira de cabeça para baixo, ou seja, com o casco para cima devido a uma onda gigante no oceano, e um grupo de pessoas começa a subir para o casco pois ele vai afundando e a água subindo por dentro em direção ao casco também. Foi naquele momento que pensei: "A água vai subindo e não é porque existem idosos, uma criança, jovens e adultos que ela irá parar. Ela sobe através de salas, quartos, corredores, etc., porque a natureza é fria, porque age segundo leis naturais e apenas nós é quem prezamos, valorizamos os nossos semelhantes, sentimos".

4 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 310.

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Parte I: Por que existe o amor - A explicação científica é a verdadeira: http://nepsicoreli.blogspot.com.br/

quarta-feira, 19 de março de 2014

O porquê dos nossos sentimentos - Sobre ideias e conclusões que cheguei antes de António Damásio

Palavras-chave: neurociência, consciência, antónio damásio, teoria da evolução, e o cérebro criou o homem, sentimentos, emoções, bem-estar.

Primeiro quero dizer que é uma honra para qualquer escritor de divulgação científica ver algumas de suas ideias concordando com outras de um cientista de renome internacional como o neurologista e neurocientista António Damásio, no livro "E o cérebro criou o homem".Longe de qualquer comparação porque não tenho a experiência de mais de trinta anos como professor e pesquisador em uma universidade como ele, sou grato a este incrível cientista que investiga a consciência humana, um assunto que me fascina.

Escrevi dois artigos, "O porquê dos nossos sentimentos"2 e "O porquê dos nossos sentimentos – II",3 que foram publicados pela primeira vez na revista eletrônica Cérebro&Mente – www.cerebromente.org.br – em 2001 e 2002, respectivamente, e, depois, publiquei-os em um blog meu, “Sistemas, Teoria da Evolução e Neurociências”,4 em 2008. Hoje também estão em outro blog meu, "Explicando as razões pelas quais existem nossos sentimentos e emoções" - https://razaosentimentoemocao.blogspot.com.br/, juntos, com o nome "O porquê dos nossos sentimentos. Por que eles existem? - (2001 - 2002 - 2016) -
http://razaosentimentoemocao.blogspot.com.br/2018/02/o-porque-dos-nossos-sentimentos-por-que.htm.

Fazendo um pequeno resumo eu disse neles que os nossos sentimentos e emoções serviram e foram essenciais à perpetuação da espécie humana na Terra. Eles sempre foram e são a força de ligação entre pais e filhotes, em aves e mamíferos, basicamente, e em nós humanos também, nascidos sem nenhum preparo para enfrentar o mundo que nos rodeia, e, portanto, é uma ligação imprescindível para os genitores protegerem e ensinarem esses pequenos e indefesos animais até a maturidade.

Também falei que usamos os sentimentos, emoções, inteligência e a consciência para transpormos, para vivermos em um nível funcional sistêmico5 mais alto do que apenas dormir, beber, comer e termos filhos, embora não coloquei esta denominação como está aqui. Buscamos prazeres, podemos sonhar e irmos atrás dos nossos sonhos, temos desejos.  Somos livres para escolhermos caminhos dos mais diversos em nossas vidas, de tentarmos o que quisermos.

Isto é o próprio livre-arbítrio ou algo muito parecido com ele, uma conjunção dos quatro fatores acima. Veja como exemplos: (Nós) Sabemos que (nós) podemos. (Nós) Queremos e (nós) vamos atrás. "Nós" e "Eu" são a parte da consciência implícita em nossas ações (podemos, faremos, etc.). Veja que além de uma lógica, de uma previsão lógica, existem nestas frases muitos sentimentos e emoções.

Em meu artigo “O porquê dos nossos sentimentos” eu digo: "… Temos a capacidade de procurar sexo mesmo sem a intenção de procriar. Procuramos porque gostamos, porque faz bem, porque nos satisfaz. Chegamos ao ponto de nos deliciar com um prato só para nos satisfazer mesmo sem estar com fome, ou seja, sem a necessidade momentânea de sobrevivência; por puro prazer. Procuramos coisas como viajar, sair, encontrar alguém para gostarmos, nos divertirmos com amigos, porque faz parte do nosso lazer, do nosso bem-estar".

Depois completo: "Quero dizer que vivemos procurando atividades, conquistas, coisas que nos fazem bem, para a nossa felicidade e bem-estar. Se ora não conseguimos temos outras chances, temos nosso amor-próprio e continuamos a viver, a procurar. Temos fé,6 esperança, sonhamos".

No final do artigo: " … E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc. 'Estados' correlacionados com nossas emoções e sentimentos. Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer."

António Damásio, português radicado nos EUA, no livro "E o cérebro criou o homem", entra no conceito cibernético e/ou da Teoria dos Sistemas, de homeostase, que é a propriedade dos seres vivos, ou de qualquer outro sistema aberto, de manter variáveis internas dentro de certos limites, regulando a si próprio deixando-o estável, sem se destruir, através de mecanismos regulatórios. Aliás eu sempre estranhei o fato dos cientistas desprezarem este conceito e outros da Cibernética porque qualquer forma de vida se mantém como tal utilizando a regulação biológica, química e física. São fenômenos estudados por esta importante e não valorizada disciplina do conhecimento humano, e tão bem explicada nos antigos e clássicos livros como, por exemplo, "Introdução à Cibernética", de W. Ross Ashby e "Teoria Geral dos Sistemas" de Ludwig van Bertalanffy.

A natureza atribui valores. Atribuímos valor inconscientemente e também conscientemente ao que nos faz bem, embora existam variações do que seja bem de umas para outras pessoas. Segundo Damásio: " …Tanto a homeostase básica, orientada de forma não consciente, como a homeostase sociocultural, criada e orientada por mentes conscientes reflexivas, atuam como zeladoras do valor biológico".7 Por sociocultural entende-se o nosso meio ambiente social contendo tudo aquilo ao nosso redor e/ou a nossa ação que nos levará a um mal ou bem.

Esse conceito de valor, ou valor biológico, é importante aqui porque está relacionado diretamente ou indiretamente se um organismo poderá sobreviver ou não. E não só isto: se uma mudança fisiológica e consequentemente mudança (s) em uma ou mais funções, mudará todo um comportamento, ou vários deles, se serão vantagens evolutivas ou não.

Para ter uma ideia sobre valor em nosso cérebro, como exemplo, a neurociência, nas palavras novamente de Damásio " … identificou várias moléculas químicas relacionadas, de algum modo, com os estados de recompensa ou punição e assim, indiretamente, associadas ao valor. Algumas das moléculas mais conhecidas serão familiares a muitos leitores: dopamina, norepinefrina, serotonina, cortisol, oxitocina, vasopressina [...] A neurociência também identificou uma série de núcleos cerebrais que fabricam essas moléculas e as distribuem a outras partes do cérebro e do corpo (os núcleos cerebrais são aglomerados de neurônios)".8

Para ele, valores em nós humanos regulam desde funções micros, automáticos, e também os macros relacionados a uma vida rica em bem-estar.

Não existe ser humano nenhum que não pense em seu próprio bem-estar. Por mais diferentes culturas a que pertencem, por mais diferentes sejam as vidas das pessoas, por tudo o que existe para procurar e melhorar o bem-estar, etc., esta sempre foi e será uma meta a alcançar.

Nos primeiros parágrafos de “O porquê dos nossos sentimentos” eu falo da nossa procura por sexo sem a necessidade de procriação para o nosso prazer, para nos sentirmos bem, que são faces do nosso bem-estar. Digo também de comer alimentos saborosos, sair, diversão, e, se você fizer uma lista de tudo o que procura e faz no seu dia a dia, em sua vida, ficaria exausto de tantas situações a descrever.

Veja, sentimentos, emoções, inteligência e consciência nos fazem indivíduos libertos a experimentarmos, procurarmos, etc., porque, como eu já disse: "…Retire tudo isto dos humanos e verá a nossa espécie desaparecer". Na verdade não seríamos nem humanos sem tudo isto.

Resumindo, a minha frase: "…E sobrevivência para o ser humano engloba, além de sua natureza racional, tudo o que proporciona satisfação, felicidade, prazer, conquistas, etc.", é a nossa sempre procura de bem-estar que Damásio cita em seu livro "E o cérebro criou o homem".


Notas:

1 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 440 p.


In english: “Our feelings. Why do we have them? - (2)”


5 - Na falta de um termo melhor ou apropriado. Considere o conjunto total de matéria, energia, informação e, principalmente, a qualidade dessa informação de um ser vivo. Alguns indivíduos podem possuir menos massa, gastar menos energia que outros, mas, tendo uma quantidade e/ou qualidade de informações superiores, em que pesem mais estes fatores, "por definição" vivem em um nível funcional sistêmico mais alto. É o caso dos humanos e das baleias. Elas possuem mais massa, gastam mais energia e possuem um cérebro maior que os nossos, mas, a nossa qualidade de informação é tão maior, que no conjunto total desses fatores, o nível funcional sistêmico, faz com que fiquemos em primeiro lugar. Muitos dinossauros eram pesados mas os cérebros bem pequenos os tornavam pobres em nível sistêmico, e, por outro lado, pequenos mamíferos como os roedores, com massas e muito menor gasto de energia que animais maiores, poderão ter, devido às suas vivacidades e inteligências, um nível funcional sistêmico mais elevado.

6 - Pode ser mesmo a fé em entes sobrenaturais (na verdade errônea) ou o acreditar e a fé em nós mesmos. Faço uma distinção clara entre elas em vários artigos meus, como por exemplo: 
"O acreditar e a fé como vantagens evolutivas"
"Consciência, Amor-Próprio, Fé e Transcendência"

7 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 43-44

8 - 1 - DAMÁSIO, António R. E o Cérebro Criou o Homem. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 67


quarta-feira, 5 de março de 2014

A Teoria da Relatividade não é difícil de entender - A relatividade da massa

Se você viajar a uma velocidade próxima a da luz, 300.000 km/s, sua massa, seu peso, aumentará muito e tenderá ao infinito quanto mais próximo chegar a esta velocidade! Ou seja, você nunca chegará!
Ficção científica? Não, realidade!
Para começar a explicar mais este fenômeno intrigante da Teoria da Relatividade do Einstein, direi algo importante sobre isto: sua massa aumenta não porque a quantidade de átomos ou moléculas aumentará em seu corpo. Ela aumenta devido à medida de como é realizada. Quando é realizada em uma balança comum você está em repouso em relação a ela.
É algo perturbador tentar intuir como tudo isto acontece mas podemos utilizar para este propósito a equação da relatividade formulada por Einstein:  E = m.c2.
Ela relaciona diretamente massa com energia e é uma das mais famosas equações, senão a mais, da Física.

Energia é igual à massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado.
A luz possui uma velocidade constante em um mesmo meio e, como eu disse no outro artigo, “A relatividade do tempo”, neste blog, esta propriedade é fundamental na relatividade, nos fenômenos relativísticos. Não fosse assim a Teoria da Relatividade não existiria.  
O quadrado da velocidade da luz, c2, é também constante, um número, um invariante. Grande mas invariante.
Realizando uma pequena mudança dos termos da equação E = m.c2, passando a massa para o lado esquerdo temos:
E  =  c2        (1)
m

Isto quer dizer que a divisão entre a energia pela massa, em qualquer evento, é constante. A energia se apresenta de uma forma geral, podendo ser eletromagnética, nuclear, cinética, etc. Em termos de qualidade ou natureza, a massa também, mostrando a força desta equação na compreensão dos fenômenos do universo.
Estou falando de uma viagem espacial, ou seja, de energia de movimento ou cinética. Aumentando a velocidade da nave, a energia E aumenta e, para  a equação (1)  se manter constante, m deverá aumentar também.
Fazendo uma comparação com algo muito simples para você entender, pegue o resultado de uma fração qualquer, como 10/2 = 5. Se o valor 10 aumentar para 15 e se o resultado da fração terá que continuar 5, constante, o denominador 2 deverá aumentar também, neste caso, para 3.

Mais uma vez vemos o quão importante é saber que a velocidade da luz é sempre uma constante em um mesmo meio. Se não fosse assim a massa m poderia se manter constante... Da equação (1), E variando com c, e consequentemente c ao quadrado também variando, a massa poderia ficar constante, mas não é o caso.

terça-feira, 4 de março de 2014

A Teoria da Relatividade não é difícil de entender - A relatividade do tempo - Para estudantes do nível médio


Se você entrar em uma nave e viajar a uma velocidade muito próxima a da luz, durante, por exemplo, um ano, e depois retornar, verá que aqui na Terra se passaram milhares de anos. O quanto de tempo passará no planeta, em qualquer viagem, dependerá do quanto você estiver mais próximo da velocidade da luz que é de 300.000 km/s. Poderá ser de até milhões de anos!

E outro fato: quem observar a sua nave daqui verá que é mais curta em comprimento do que quando ela estava no momento da decolagem, parada - em repouso!

Ficção científica? Não, realidade! 

Tenho certeza que mais de 99% das pessoas por aí não sabem disso e se você disser um número maior ainda não acreditará.

Pois os dois fatos acima descritos por mim são a relatividade do tempo e a relatividade do espaço que explicarei neste blog.

Porque tudo ocorre da maneira quase inconcebível na relatividade, irei primeiro e brevemente falar da natureza do tempo. Veja, ao observar a oscilação de um pêndulo, você sente "que algo se passou" nessa oscilação. Este "algo" ou "alguma coisa" é o próprio tempo e todas as pessoas sentem o mesmo. E se o pêndulo ficar parado - em repouso - em relação a você, o próprio fato de observa-lo irá fazê-lo raciocinar ou perceber este fato, e isto também contribuirá para que você sinta a passagem do tempo. E por último, se você se desprender deste mundo e começar a imaginar cenas, pensar, sentirá também a passagem "de algo" que é o tempo, enquanto a sua mente troca de cenas. Acontecerá também se você se fixar em uma imagem.

Agora peço a você prestar atenção no pêndulo acima. Para você observa-lo faz-se necessário que a luz reflita nele e venha até aos seus olhos, se não, não enxergaria nada e ninguém também não veria nada em nosso mundo: pessoas, objetos, céu, ruas, tudo!

Dois americanos, Michelson e Morley, descobriram algo muito estranho em relação à luz, no final do século XIX: a velocidade dela não pode, literalmente, ser adicionada e nem subtraída da velocidade do emissor. E se você tiver sempre isto em mente, entenderá toda a relatividade do tempo e do espaço¹. Eles ganharam o Nobel em 1907, sendo os primeiros estadunidenses a receberem esse prêmio.

Veja, se você está em um carro a 100 km/h, e alguém nele atira um objeto no sentido do movimento, para frente, a velocidade desse objeto, para alguém que esteja parado - em repouso - será a soma da velocidade do carro mais a velocidade do objeto. Se este for lançado a 20 km/h em relação ao carro, sua velocidade em relação à pessoa em repouso - utilizarei este termo de agora em diante -, será de 120 km/h, ou seja, a soma das duas velocidades. Por outro lado, se a pessoa no seu carro atirar o objeto para trás, a velocidade dele, em relação a quem estiver em repouso, será de 80 km/h, a subtração das velocidades. Isto se aplica a objetos comuns, mas não com a luz e somente ela (e todas as  outras ondas eletromagnéticas).

Então pensemos em uma experiência com um emissor de luz, no laboratório de uma nave que viaja ao longe, com uma velocidade próxima a da luz, da esquerda para a direita, estando você em repouso em relação a ela e com um instrumento preciso - um ótimo telescópio - para  ver uma experiência.  O emissor se encontra na mesma distância entre as paredes opostas, uma a sua direita no sentido do movimento e outra à esquerda. Existem dois pêndulos prestes a serem colocados em movimento. O emissor de luz, gerando dois sinais em sentidos opostos,  um para a direita e outro à esquerda, colocará os pêndulos em movimento assim que chegarem a dois dispositivos para aciona-los. Um observador, uma pessoa, dentro da nave, e por estarem as duas paredes na mesma distância do emissor, verá os dois pêndulos iniciarem os seus movimentos ao mesmo tempo, digamos, às doze horas. Mas para você,  o feixe para  a direita, a 300.000 km/s, não podendo ser adicionado à velocidade da nave, estaria perseguindo o mecanismo que está na parede à direita, no mesmo sentido do movimento da nave. Mas o feixe para à esquerda não podendo ser subtraído da velocidade da nave, iria ao encontro do mecanismo! Resultado: o pêndulo de trás começa a oscilar primeiro que o da frente! Um antes das dozes horas e o outro depois.

Veja, você observa dois fenômenos físicos ocorrendo de uma forma bem distinta daquela da pessoa da nave. Como isto é possível? São os mesmos fenômenos!

Se a velocidade da luz pudesse ser adicionada à do emissor, o feixe para a  direita seria  "arremessado" para frente e o da esquerda subtraído, tendo uma compensação e os dois acionariam os dispositivos ao mesmo tempo. Mas a luz não segue a lei de adição e subtração de velocidades dos objetos, corpos a que estamos acostumados. Eu não colocarei aqui algumas contas de adição e subtração dessas velocidades, mas elas dariam certo, ou seja, a luz acionaria os pêndulos ao mesmo tempo para você também. E se eu  não as colocasse, o que demonstra ser a realidade da luz e das ondas eletromagnéticas, realmente, nas contas, seria mostrado que um pêndulo começaria o seu movimento antes do outro.

Ilusão de ótica? Não. As coisas são assim, o universo é assim porque a luz é assim... Todos os fenômenos físicos, e, generalizando, químicos, biológicos etc., tudo o que observamos e com isto construímos a tecnologia,  as ciências, etc., são dependentes dessas características dos fenômenos eletromagnéticos ou, se você quiser também, se considerar a luz como constituída de fótons.

E a sensação do "passar" o tempo para o observador da nave e você? Seriam diferentes sim! Digamos que o emissor de luz seja acionado manualmente, por um botão, pela pessoa da nave. Ela terá a sensação de passar o tempo do seguinte modo: após apertar o botão se passa um tempo; depois os pêndulos começam a se mover e daí para frente ela sente esse passar do tempo observando o movimento oscilante dos dois. E você primeiro também espera o tempo decorrer, mas até que o pêndulo da esquerda passa a se mover; depois sente o tempo passar até o segundo se mover, para depois sentir, ver, observar, os dois oscilando. Diferente não?

Em nosso mundo cotidiano, com objetos se movendo com velocidades bem inferiores a da luz, fica difícil, se não impossível, perceber essas diferenças, mesmo se se observar os veículos mais rápidos em que um ser humano já esteve: as naves Atlantis, Endeavour, etc. ou os foguetes Apollo para a Lua, que viajavam a +/- 30.000 km/h, correspondendo a 8,33 km/s. Você na Terra não perceberia a diferença de tempo entre os movimentos iniciais dos pêndulos, ou seja, eles começariam a oscilar como  o sujeito na nave estaria sempre os vendo: ao mesmo tempo.

A velocidade da luz é constante em um mesmo meio. Ela é menor na água, em nossa atmosfera, enfim, em meios onde há matéria e que ela possa atravessar, mas no vácuo é de 300.000 km/s. Por isto, a Física consagrou a sua representação algébrica como c, uma constante.

Conclusão: o tempo "se passa" diferentemente para objetos, animais, pessoas etc., dependendo da velocidade de uns em relação aos outros. E existem equações relacionando, para cada velocidade entre dois observadores, ou mais, a diferença de tempo entre eles.


Nota:

1 - Em qualquer livro da Teoria da Relatividade você irá ver que ela está apoiada no fato da luz ser uma constante universal, como eu disse aqui, e que as leis da Física são as mesmas para qualquer referencial inercial que se mova em velocidade constante em relação a outro. É o mesmo que dizer que qualquer experimento feito em um referencial desses poderá ser realizado também em outro. Inclusive a própria Terra pode ser considerada como tal se desprezarmos a gravidade e a rotação em torno do seu próprio eixo.