Argos Arruda Pinto

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terça-feira, 12 de agosto de 2025

Eu, a IA e a Circularidade Ateísta

Escrevo sobre o que denominei Circularidade Ateísta e ainda envio esta ideia a filósofos, filósofos cristãos e cientistas das religiões, sem obter uma resposta satisfatória. Então fiz três perguntas à IA do Gemini do Google sobre o assunto. 

Primeiro, a fim de informar a você leitor, a Circularidade Ateísta é o seguinte: "Como pode existir uma religião verdadeira se as práticas religiosas das outras são também benéficas aos seus adeptos, com exceções, demonstrando ser a (s) divindade (s) e os valores religiosos também verdadeiros, mas, isto também seria um absurdo porque não se pode haver várias religiões verdadeiras ao mesmo tempo, com divindade (s) e valores religiosos também verdadeiros, e, então, devido à esta circularidade, não nos levaria a crer na verdade única de todas serem falsas, apenas criações da mente humana?" 

A "conversa": 

Eu: Quero fazer uma pergunta, mas antes colocarei algumas ideias:  

1) Existem muitas religiões atualmente no planeta;  

2) Todas possuem um deus principal, vários deuses ou vários deuses, mas com um principal;  

3) E, quem sabe, nenhum deus principal, mas para a minha pergunta não importa;  

4) Qualquer adepto de uma dessas religiões acredita apenas no deus da própria religião, e, se houver pessoas que acreditam em vários, não importará aqui porque seria possivelmente exceções;  

5) Embora a grande maioria das pessoas não declarem publicamente, elas rejeitam o (s) deus (es) da (s) outra (s), porque seria inconcebível acreditar em vários deles ao mesmo tempo, tomando-os como verdadeiros;  

6) Nunca vejo esta afirmação ser veiculada frequentemente, aliás, nunca;  

7) Evidente que os adeptos de cada uma religião considera o seu (s) deus (es) como o (s) único (s) verdadeiro (s), pois, caso contrário, estaria admitindo a existência do (s) outro (s).  

Pergunto, então: não seria correto acreditar que, diante de tantas crenças, acreditar que todos foram invenções da imaginação humana, em todos os lugares e épocas em nosso planeta?  

IA: sua pergunta aborda um tema complexo e fascinante, que toca em questões de fé, razão e o papel da religião na história e na cultura humana. A partir das suas ideias, você levanta um ponto central sobre a multiplicidade de crenças e a aparente exclusividade de cada uma delas. 

A crença de que os deuses são invenções humanas é uma perspectiva válida e comum no campo da filosofia da religião e da antropologia. Essa visão, muitas vezes associada ao ateísmo, agnosticismo ou ao humanismo secular, sugere que as divindades são construções culturais que surgem para dar sentido ao mundo, responder a perguntas existenciais e estabelecer códigos morais. As histórias sobre deuses e a organização das religiões seriam, portanto, reflexos das sociedades que as criaram, moldadas por suas necessidades, medos e aspirações. 

Por outro lado, para os crentes de qualquer religião, a existência de outras crenças não invalida a sua própria fé. Eles consideram que o seu deus ou deuses são a única verdade, e as outras religiões seriam interpretações equivocadas ou, em alguns casos, invenções. A exclusividade da fé é um pilar para muitas religiões, pois é o que dá a ela sua autoridade e sua razão de ser. A existência de múltiplas religiões é vista não como uma prova de que todas são falsas, mas como evidência da busca humana por uma verdade que, segundo eles, já foi revelada em sua própria tradição. 

Em resumo, a sua pergunta nos leva a duas conclusões opostas e igualmente possíveis: 

- A pluralidade de deuses como evidência de invenção humana: Se cada religião alega ser a única verdadeira, e todas elas entram em contradição, a explicação mais lógica para um observador externo seria a de que todas são, na verdade, produtos da imaginação humana. 

- A pluralidade de deuses como evidência da busca pela verdade: Para quem tem fé, a existência de várias crenças não prova que todas são falsas. Pelo contrário, mostra que a humanidade sempre buscou respostas para as grandes questões da vida, e que cada religião é uma manifestação dessa busca, com uma delas (a sua própria) sendo a correta. 

Ambas as perspectivas coexistem, e a escolha de qual delas é a mais adequada depende, fundamentalmente, da sua própria visão de mundo, fé e razão. 

Eu: Continuando esta conversa, vejo que as práticas religiosas de cada religião, diferentes entre si, promovem, em geral, um bem-estar, alívio de preocupações, conforto "emocional" etc., aos adeptos. Então existiriam todos os valores, deus (es), entidades divinas, regras etc., ao mesmo tempo no universo, sendo um absurdo, mas, por outro lado, não se poderia realmente pensar que as crenças são frutos de ensinamentos, aprendizagem etc., através dos país, irmãos, parentes, amigos etc., do meio "ambiente social" no qual as crianças crescem? Quer dizer, deus (es) e outros valores, estariam apenas no cérebro de cada um, influenciando essas pessoas positivamente, mas sem existirem na realidade?  

IA: Sua nova pergunta aprofunda a discussão de forma muito interessante, misturando os benefícios psicológicos da fé com a influência do ambiente social na formação das crenças. A ideia de que as crenças religiosas, incluindo a existência de deuses, poderiam ser "apenas" construções mentais com efeitos positivos para o indivíduo é uma das principais teses da psicologia da religião e da sociologia. 

Vamos analisar seus pontos: 

- Bem-estar e alívio emocional: É amplamente reconhecido que a religião pode oferecer um suporte psicológico significativo. As práticas religiosas, o senso de comunidade e a crença em uma força superior podem proporcionar conforto em momentos de dificuldade, reduzir o estresse e dar um propósito à vida. De uma perspectiva puramente científica, estes benefícios são reais e mensuráveis, independentemente de se o objeto da fé existe ou não na realidade material. O "lugar" onde esses benefícios acontecem é, de fato, o cérebro humano. 

- Crenças como resultado de ensinamentos sociais: A sociologia da religião aponta que a maioria das pessoas adota a fé de seus pais e de seu ambiente social. A religião é vista como um sistema cultural que é transmitido de geração em geração através da socialização, e não como uma escolha puramente racional ou uma revelação individual. A criança aprende a crer da mesma forma que aprende uma língua ou as regras de convivência social. De acordo com essa perspectiva, o "deus" em que uma pessoa acredita é, em grande parte, determinado pelo local e pela família onde ela nasceu. 

- Deuses e valores no cérebro, sem existência na realidade: Esta é a conclusão natural para as perspectivas anteriores. A ideia central é que as crenças religiosas são fenômenos neurológicos e sociais. Deus, os valores morais e as entidades divinas seriam representações mentais, poderosas e influenciadoras, mas que não correspondem a seres ou realidades fora da mente humana. Elas "existem" na medida em que são pensadas e sentidas, e têm um impacto real na vida das pessoas, mas sua existência não seria ontológica (ou seja, não seria parte da realidade objetiva do universo). 

Essas perspectivas, no entanto, não necessariamente desqualificam a experiência de fé para os crentes. Para uma pessoa religiosa, a influência social e os benefícios emocionais são apenas a forma como a fé se manifesta. A transmissão da religião pela família é vista como parte do plano divino, e o bem-estar emocional é um dos frutos da comunhão com o divino. A "existência" de Deus não se limitaria ao cérebro, mas seria a fonte de onde tudo isso emana. 

Em suma, você levanta uma questão central sobre a origem e a natureza da crença. Uma interpretação sugere que a crença é uma construção humana poderosa e benéfica, mas sem uma base na realidade objetiva, enquanto outra interpretação, a dos crentes, vê essas mesmas manifestações como evidências de uma realidade divina que transcende a mente. 

Eu: Poderíamos pensar realmente que todos os valores religiosos, incluindo deus (es) são construções das mentes humanas em todas as épocas?  

IA: Sim, podemos. A perspectiva de que todos os valores religiosos e deuses são construções da mente humana é uma visão amplamente discutida e aceita em campos como a sociologia, antropologia e a psicologia da religião. 

Essa linha de pensamento sugere que, ao longo da história, os seres humanos criaram sistemas de crenças para diversas finalidades, como: 

- Dar sentido ao mundo: As religiões oferecem explicações para fenômenos naturais, a origem da vida, o sofrimento e a morte, preenchendo lacunas de conhecimento que a ciência, em sua época, não podia responder. 

- Estabelecer ordem social: Valores e leis morais, muitas vezes atribuídos a uma fonte divina, ajudam a organizar sociedades, promover a cooperação e manter a ordem. 

- Atender a necessidades psicológicas: A fé pode proporcionar conforto emocional, esperança, um senso de pertencimento e alívio de preocupações. A crença em um ser superior ou em uma vida após a morte pode ser uma forma de lidar com o medo da mortalidade. 

Nessa visão, a existência de milhares de religiões diferentes — cada uma com seu próprio panteão, regras e "verdades" — é vista não como a manifestação de diversas realidades divinas, mas como a prova da diversidade da criatividade humana ao longo de épocas e culturas. Cada deus seria um reflexo das esperanças, medos e valores da sociedade que o criou. 

É uma forma de entender a religião que não nega a sua importância ou o seu impacto real na vida das pessoas, mas reinterpreta sua origem. Em vez de uma revelação divina, a religião seria uma invenção humana que, por sua utilidade social e psicológica, se espalhou e se enraizou em todas as culturas do planeta.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Neurorreligação: o resultado da cura pela psiquiatria, psicoterapia, práticas religiosas e a meditação através da neuroplasticidade

Palavras-chave: neurociência, psiquiatria, psicoterapia, práticas religiosas, meditação, neuroplasticidade.


Resumo - 01

Uma pessoa pode se afastar da sua vida social, relações amorosas e do trabalho devido a problemas emocionais. A depressão é um exemplo comum desses problemas.
Psiquiatria, terapias, meditações e até práticas religiosas e/ou um conjunto delas podem resolver esses problemas. Essas quatro práticas promovem a neuroplasticidade, ou seja, alteram o funcionamento neuronal, propiciam a formação de novos axônios e dendritos ou alteram a configuração de circuitos neurais.
A pessoa se cura, volta a sua vida normal, afetiva e de trabalho. Ela se religa ao seu mundo de antes dos seus problemas emocionais devido à neuroplasticidade.
Dei um nome a isto: neurorreligação.
Neuro de neurônio, neuroplasticidade, rede neuronal e religação de religar-se mesmo.
A cura vem de pequenos ajustamentos do tecido neural.

Resumo - 02
O que a psiquiatria, psicoterapia, práticas religiosas e a meditação produzem nas pessoas? A  neuroplasticidade. E o que mais? A busca, em resumo, do bem-estar psíquico das pessoas, às quais essas retornam, após um tempo enfermas, a três termos representando nossas vidas em sentido geral: social, afetiva e de trabalho. É uma forma de se religar às vidas anteriores, através de mudanças estruturais em áreas específicas do cérebro. Assim, de quatro métodos diferentes, atuando em nível micro nas áreas cerebrais, a neuroplasticidade produz um mesmo efeito no comportamento macro das pessoas, e, portanto, quero cunhar um novo termo científico, a neurorreligação, como a cura de problemas emocionais, doenças, etc., através dessas quatro técnicas. Falarei de cada uma delas em separado. 

Introdução 
Foi com modernos e sofisticados aparelhos eletrônicos de escaneamento cerebral, gerando imagens denominadas neuroimagens, como, por exemplo, o SPECT (Tomografia Computadorizada de Emissão de Fóton Único), o PET (Tomografia por Emissão de Pósitron) e o fMRI (Imagem por Ressonância Magnética Funcional), nos quais os cientistas começaram a investigar com detalhes as profundezas do funcionamento do nosso cérebro. Nesta "Introdução" descreverei aqui apenas alguns processos de análise do fMRI, conforme informações da referência bibliográfica, (1) para não ficar cansativo ao leitor. 

A presença de oxigênio na hemoglobina em nosso sangue faz esse pequeno conjunto se tornar, na linguagem da Física, paramagnético, uma condição na qual  um campo magnético externo possa interagir com um pequeno campo também magnético produzido por esse conjunto. O fMRI é capaz de detectar o campo magnético do sistema oxigênio-hemoglobina e, através de um escaneamento, obter dados de quais regiões cerebrais estarão funcionando com maior intensidade. 

A quantidade de informações obtidas por esse tipo de scanner requer um apoio de um sistema de localização e investigação dessas informações o qual recebe o nome de Machine Learning. É, na verdade, um aprendizado visando relacionar o próprio aprendizado humano a proporcionar a inteligência em computadores, a inteligência artificial. Um tipo de método para se trabalhar com Machine Learning é o MATLAB, um programa computacional, abreviação de MATrix LABoratory, mas não sendo apropriado a profissionais da saúde. Outro, com muito maior eficácia a decodificar informações de padrões de atividades  cerebrais é o MVPA, sigla de “Multi Voxel Pattern Analysis”. 

O fMRI realiza um escaneamento cerebral obtendo dados a cada dois ou três segundos com uma pessoa dentro de uma caixa cilíndrica com um poderoso eletroímã. O campo magnético gerado por esse eletroímã chega a ser 30.000 vezes o campo magnético da Terra.  

É informado à pessoa para pensar, por exemplo, em uma casa, enquanto o scanner trabalha. Depois em um sapato e assim por diante. O cérebro forma padrões desses objetos de análise, os quais, no futuro, serão reconhecidos quando não for solicitado à pessoa pensar neles e ela pensar… É difícil se concentrar em uma palavra só todo o tempo e por isso outros pensamentos, objetos, são também percebidos e constituem os chamados ruídos, interferências. Repetindo várias vezes o processo, os cientistas conseguem chegar nas palavras por eles ditadas.  Temos então uma leitura da mente, mas com substantivos, ou seja, objetos concretos. Assim, aprimorando as “Machines Learning’s”, adjetivos, palavras comuns como pronomes, advérbios, etc., os pensamentos das pessoas, serão compreendidos como frases, o princípio do processo da linguagem, até com detalhes como intenção, mentira, sinceridade, etc. 

Assim, pela primeira vez na história da Ciência, ela pôde contar com uma ajuda nunca antes sonhada por ninguém, levando os cientistas a verem quais regiões cerebrais eram mais ativas ou não, durante várias atividades às quais eu menciono quatro delas neste texto.    

Método 
Discorrer brevemente sobre a psiquiatria, psicoterapia, meditação e práticas religiosas, relacionando-as com as experiências de escaneamento ou varredura cerebrais, nos quais se descobriram alterações em áreas cerebrais e, com isso, descrever a relação com as mudanças no comportamentos das pessoas, melhorando suas condições psíquicas. 

Psiquiatria 
Quero nesta primeira seção discorrer somente com a depressão pois é mais fácil, até para os leigos, compreender os efeitos positivos dos fármacos utilizados na cura e/ou amenização dos sintomas dessa doença tão comum. Pessoas muitas vezes incrédulas no sentido de aceitá-la como uma enfermidade e mais como um estado passageiro de alguém próximo, se convencem do poder dos remédios utilizados para tanto. E um importante fato a ser mencionado aqui é a suspensão da neuroplasticidade quando da presença dessa doença.    

Estar deprimido não é algo fácil para ninguém, principalmente na depressão profunda, na qual os conselhos de pessoas como sair de casa e encontrar amigos, viajar, ficar de férias, etc., não resolvem nada. Uma pessoa nessas condições pode nem sair da cama e até o convívio com os entes familiares fica afetado. O melhor é procurar ajuda psiquiátrica, a qual resultará em prescrição de fármacos, entre eles, os antidepressivos. Estes aumentam os níveis de neurotransmissores nas fendas sinápticas ou promovem a inibição da  recapitação da serotonina como no caso da fluoxetina. Mas não é só isso. Tem-se descoberto uma grande influência do stress na origem das depressões, na qual os antidepressivos podem diminuir o desgaste da neuroplasticidade, aumentar a neurogênese, favorecer o crescimento de fibras nervosas, formação de novas sinapses e estabilização das já existentes. O próprio aumento da neurogênese se faz com o uso contínuo, prolongado, desses remédios, não com outras classes de fármacos, e, também, não sendo um tratamento de curta duração. (2)  

"A plasticidade neural, um mecanismo fundamental de adaptação neuronal, é interrompida na depressão. As mudanças na plasticidade neural induzida por estresse e outros estímulos negativos desempenham um papel significativo no aparecimento e desenvolvimento da depressão. Também se descobriu que os tratamentos antidepressivos exercem seus efeitos antidepressivos através de efeitos regulatórios sobre a plasticidade neural ... O hipocampo é a região cerebral mais comumente estudada na pesquisa sobre depressão. Do ponto de vista estrutural, o hipocampo faz parte do sistema límbico e desenvolve conectividade de fibras nervosas com regiões cerebrais relacionadas à emoção, por exemplo, o córtex pré-frontal e a amígdala. ... A plasticidade do hipocampo na depressão envolve alterações volumétricas do hipocampo, neurogênese hipocampal e apoptose de neurônios do hipocampo ... Por exemplo, a venlafaxina, um inibidor duplo de recaptação de serotonina / noradrenalina, suprime a apoptose hipocampal aumentando o fator neurotrófico derivado do cérebro [BDNF]. (3) Além disso, a fluoxetina, um inibidor da recaptação da 5-hidroxitriptamina, regula a plasticidade do hipocampo, aliviando a regulação positiva da molécula de adesão celular neural polissiica sinaptosomal, causada por depressão e induz uma resposta antiapoptótica no hipocampo. (4)" (5)  

Os efeitos dos antidepressivos utilizados para os tratamentos da depressão, realmente  são muito estudados e podem incluir calmantes e ansiolíticos. Talvez as publicações em psicologia / psiquiatria sobre a depressão são as maiores em número de saídas para os leigos, indicando o quanto já se avançou sobre esse assunto. Antidepressivos tricíclicos, de recapitação da serotonina, recapitação da noradrenalina, inibidores da monoaminoxidase (IMAO), antidepressivos tetracíclicos, etc., fazem parte do arsenal já criado pelos cientistas a minimizarem os sofrimentos dessa terrível doença.  
  
Na realidade bastaria apenas o aumento da quantidade de neurotransmissores entre neurônios, ou seja, um efeito muito simples dos antidepressivos, para que a funcionalidade de circuitos neuronais se modificasse e, com isto, a chamássemos de neuroplasticidade, modificando parte do comportamento de uma pessoa. 

Quer dizer, de transformações microscópicas em níveis neuronais, altera-se o comportamento das pessoas, trazendo-as de volta às suas vidas sociais, afetivas e de trabalhos, estabilizando suas emoções e sentimentos? Sim, e é por isso que eu chamo de neurorreligação. 

Psicoterapia 
“Devemos nos lembrar que todas as nossas ideias provisórias em psicologia partem da premissa da qual, um dia, elas estarão baseadas em uma subestrutura orgânica (Freud). (6) 

"...baseadas em uma subestrutura orgânica." Freud já imaginava o comportamento humano oriundo do funcionamento de estruturas orgânicas cerebrais.              

Por outro lado, uma ótima definição de neuroplasticidade é: a capacidade do cérebro mudar e se adaptar em estrutura e funcionamento devido a estímulos intrínsecos e extrínsecos. Em outras palavras, a entrada muda a resposta, e esta é a "primeira lei", a lei fundamental da neuroplasticidade. Se as entradas mudam as respostas, então estímulos aos quais um profissional da saúde proporciona ao paciente, podem mudar estruturas e funcionamento de áreas cerebrais, alterando o comportamento pós-psicoterapia? Sim e isso é a moderna psicologia, como mostram as considerações abaixo: 

"Há muito tem sido reconhecido pelos clínicos que as intervenções psicológicas podem alterar profundamente os conjuntos de crenças, modos de pensar, estados afetivos e padrões de comportamento dos pacientes ... A redução dos sintomas é um dos principais objetivos da psicoterapia em geral e pode ser considerada como a referência contra a qual o sucesso das terapias comportamentais e cognitivas deve ser medido. A elucidação dos correlatos neurais da redução dos sintomas é, portanto, o objetivo principal de qualquer investigação sobre os mecanismos biológicos da psicoterapia." (7) 

"A psicoterapia também é 'biológica', pois pode levar a mudanças funcionais e estruturais reais no cérebro. Na verdade, às vezes a psicoterapia e a medicação produzem mudanças surpreendentemente semelhantes no cérebro ... Em um estudo, pesquisadores da UCLA descobriram que pessoas que sofriam de depressão tinham atividade anormalmente alta em uma área do cérebro chamada córtex pré-frontal. Aqueles que melhoraram depois de terem sido tratados com um tipo de terapia chamada terapia interpessoal (IPT) mostraram uma diminuição na atividade no córtex pré-frontal após o tratamento. Em outras palavras, o IPT parecia "normalizar" a atividade cerebral nessa região hiperativa. Outro estudo analisou pessoas que têm transtorno obsessivo compulsivo (TOC), que tendem a ter uma área hiperativa do cérebro chamada núcleo caudado. O tratamento com um tipo de terapia chamado terapia cognitivo-comportamental (TCC) foi associado com uma diminuição na hiperatividade do núcleo caudado, e o efeito foi mais evidente em pessoas que tiveram uma boa resposta à TCC. Em outras palavras, quanto melhor a terapia parecia funcionar, mais a atividade cerebral mudava." (8) 

No artigo “Psicoterapia e neurociências: um encontro frutífero e necessário”, da Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, (9) os autores dizem o seguinte: “A neurociência tem demonstrado que um comportamento pode ser aprendido e aperfeiçoado pela experiência, que altera a ‘voltagem’ das sinapses na rede neural, provendo a formação de novos circuitos neurais e novas memórias, acessíveis em ocasiões posteriores." (10) 

Outro relato deles diz: “Os estudos com neuroimagem … objetivam pesquisar alterações anatômicas especialmente relacionadas à volumetria de estruturas encefálicas e funcionais para investigarem alterações na dinâmica do fluxo sanguíneo encefálico, aumento ou decréscimo de ativação nas estruturas e circuitos neurais" (11) 
Aqui entra o ponto em questão: conversas entre um paciente e um profissional alterando estruturas cerebrais e consequentemente comportamentos. Por intermédio de conversas entre os dois, o paciente acaba conhecendo melhor os seus problemas, e, por isso, aprender a resolvê-los. Nesta interação o paciente também aprende a melhor se adaptar e agir no meio ambiente social no qual vive. Espera-se também da psicoterapia uma melhora na qualidade de vida através de comportamentos mais adaptados, pensamentos mais racionais e uma melhora na inteligência emocional como um todo. Como efeitos de longo prazo, novas capacidades e competências são adquiridas em nível da personalidade, aumento da autoestima, um posicionamento mais eficaz perante a vida.  

Isso é uma religação ao mundo no sentido de deixarem as pessoas mais felizes, uma volta das pessoas aos seus mundos normais. 

Mais uma vez, transformações micro em níveis neuronais altera-se o comportamento macro das pessoas, trazendo-as de volta às suas vidas sociais, afetivas e de trabalhos, estabilizando suas emoções e sentimentos? Sim, a  neurorreligação.   

Meditação 
Meditação é, literalmente, pensar, refletir, mas, de acordo com esse tempo de pensar e o tempo gasto nesse exercício cerebral, uma grande carga de emoção é envolvida nesse processo. 

Sua origem é muito antiga e, apesar do conhecido hoje, ser dos egípcios as primeiras evidências, ela é associada a religiões orientais, embora a sua prática possa não ter conteúdo religioso, ou seja, seria também o pensar sem vínculo com valores religiosos. 

Ela é livre, você pode refletir sobre uma frase positiva, uma palavra, um objetivo, etc. Muitas pessoas seguem os passos da tradição budista, a qual existe há muito tempo, sendo, digamos assim, a mais avançada nessa prática tão relaxante às pessoas interessadas em buscar alívio para suas tensões e ansiedades. 

E não é por acaso uma prática difunde-se cada vez mais em nossa cultura ocidental: a meditação mindfulness baseada nessas tradições budistas.   

Nessa seção do texto irei me basear no artigo "A translational neuroscience perspective on mindfulness meditation as a prevention strategy" (12), no qual os autores descrevem essa meditação como "atenção não crítica às experiências no momento presente" e sendo subdividida em "métodos envolvendo atenção focalizada e aqueles envolvendo monitoramento aberto da experiência do momento presente".  

Em termos dos meus interesses aqui é a neuroplasticidade, promovida, nesse caso, nas regiões cerebrais ligadas à atenção, autoconsciência e regulação emocional. 

Regulação emocional refere-se a estratégias influenciando quais emoções surgem e quando, por quanto tempo elas ocorrem e como essas emoções são experimentadas e expressas. Estudos de neuroimagem mostraram a regulação emocional ativando múltiplas regiões do córtex pré-frontral (CPF) e regiões límbicas como a amígdala. 
Veja, regulação emocional, um termo sugestivo nessa minha descrição dos estados cerebrais durante a meditação: múltiplas regiões pré-frontais, regiões límbicas e estriado, sendo estas as áreas do alcance da mindfulness. Além do mais,  reduzir o estresse, promover a saúde e o bem-estar, com redução de dores  crônicas, bem como o tratamento de sintomas de saúde mental, como ansiedade, depressão e abuso de substâncias químicas, também são do alcance benéfico dessa meditação. 

O impressionante na mindfulness é, em primeira instância, a ativação de regiões cerebrais específicas às quais estão associados a domínios específicos de auto-regulação, resultando então, em última análise, na melhora da saúde mental. Algo geral influenciando muitas partes cerebrais...             

Fica claro, portanto, os benefícios da meditação mindfulness para os desequilíbrios emocionais, como a ansiedade, e, também ao transtorno de ansiedade generalizada (TAG), estado incapacitante do indivíduo em levar a sua vida normal. 

Transformações micro em níveis neuronais altera-se o comportamento macro das pessoas, trazendo-as de volta às suas vidas sociais, afetivas e de trabalhos, estabilizando suas emoções e sentimentos? Sim, a  neurorreligação.   

Prática religiosa 
É muito comum nós nos depararmos com pessoas voltando às suas vidas normais após uma fase de alguns meses ou mais, na qual haviam perdido o trabalho, entes próximos, bens materiais, etc. Ficaram deprimidas, ansiosas, sem capacidade de continuarem com a vida comum de antes dos fatos negativos ocorridos na vida delas. E o que fizeram? Se recomporão aos poucos, mas sempre procurando uma igreja ou templo para rezar, orar, se concentrarem nas palavras de um bispo ou um padre, etc. São as práticas religiosas também válidas até em casa, em um parque, em qualquer lugar onde possam exercer atividades voltadas ao "espiritual". 

No livro "Como Deus pode mudar sua mente - um diálogo entre fé e  neurociência", (trad. brasileira) (13) os neurocientistas Andrew Newberg e Mark Waldman descrevem aspectos positivos das crenças e práticas religiosas, incluindo até a meditação, como, por exemplo: 

"Centenas de estudos médicos, neurológicos, psicológicos e sociológicos sobre religião [mostram] ... até mesmo a participação religiosa mínima está correlacionada com o aumento da longevidade e da saúde pessoal". (p. 149)  

"Atividades que envolvem meditação e oração intensiva, fortalecem permanentemente o funcionamento neural em partes específicas do cérebro que estão envolvidas na redução da ansiedade e depressão, aumentando a consciência social e empatia, e melhorando o funcionamento cognitivo e intelectual." (p. 149)

"Se você contemplar Deus por tempo suficiente, algo surpreendente acontece no cérebro ... Novos dendritos são formados, novas conexões sinápticas são feitas, e o cérebro se torna mais sensível aos reinos sutis da experiência." (p. 3) 

"Intensa, a longo prazo, a contemplação de Deus e outros valores espirituais parece mudar permanentemente a estrutura das partes do cérebro que controla nossos humores ..." (p. 7)
 
"Os benefícios para a saúde associados à meditação e ao ritual religioso não podem ser negados". (p. 7)

As frases "... Novos dendritos são formados, novas conexões sinápticas são feitas ...", "... alterar permanentemente a estrutura daquelas partes do cérebro que controlam nossos humores ..." e "... As atividades que envolvem meditação e oração intensiva, fortalecem permanentemente o funcionamento neural em partes específicas do cérebro envolvidas na redução da ansiedade e da depressão, aumentando a consciência social e a empatia, e melhorando o funcionamento cognitivo e intelectual.", se referem claramente à neuroplasticidade e todas essas citações ao bem-estar, à saúde mental, com a normalização das instabilidades emocionais. 

Andrew Newberg é realmente um cientista muito famoso, todos sabem  dos  vários livros escritos por ele sobre os efeitos das meditações de monges budistas tibetanos e orações de freiras católicas a modificarem estruturas cerebrais, utilizando aparelhos como o SPECT.  

Por tudo isso, talvez só bastasse a mim, nesta seção "práticas religiosas", não incluir as meditações, mas devido ao alcance e importância das experiências de Newberg eu quis aqui colocar mais informações sobre as meditações, e por citar a tão comum e eficiente meditação mindfulness, tornando essas duas últimas seções mais vigorosas, robustas. 
Neuroplasticidade, transformações micro em níveis neuronais alterando-se o comportamento macro das pessoas, trazendo-as de volta às suas vidas sociais, afetivas e de trabalhos, estabilizando suas emoções e sentimentos como no primeiro parágrafo? Sim, a  neurorreligação. 

Resultados 
A psiquiatria, psicoterapia, meditação e as práticas religiosas realmente atuam em níveis microscópicos no cérebro, modificando o comportamento de pacientes tratando com uma só delas ou alguma combinação das mesmas. Indivíduos incapacitados temporariamente a levarem uma vida plena de trabalho, social e afetiva, retornam às suas vidas de antes dos desequilíbrios emocionais, por eles afetados, influindo positivamente no bem-estar e felicidade dos mesmos. 

Discussão 
Criar ou cunhar um novo termo científico se faz na descoberta de algo, de um padrão, colocando-se um nome em algo já existente, etc., mas em um nível superior. A partir desse nível pode-se ter muitas discussões ou aplicações relacionando fenômenos no mesmo nível. Uma pessoa curada, estabilizada em suas emoções e sentimentos, como antes de uma das quatro práticas citadas neste texto, se dirá neurorreligada ao mundo. 

Conclusão 
Quatro métodos diferentes, separados por milênios em termos de origens, levando as pessoas a um bem-estar psíquico e partindo de uma mesma propriedade em comum, a neuroplasticidade, embora em regiões diferentes do cérebro, mas com algumas iguais, realmente podem nessa finalidade em comum, levarem, a um mesmo termo científico o qual denominei de neurorreligação.      

Referências 
(1) Silva, Laura Angélica Tomáz. Ferramenta experimental para análise de padrões de atividade cerebral. 2015. Disponível em: < http://repositorio.roca.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/5629/1/PB_COADS_2015_2_03.pdf >. Acesso em: 14/05/2018. 

(2) Filipe Arantes-Gonçalves, Rui Coelho. Depressão e Tratamento - Apoptose, Neuroplasticidade e Antidepressivos. Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental. Hospital de São João/Faculdade de Medicina do Porto. 2006. Disponível em: < https://www.actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/download/910/583 >. Acesso em: 14/05/2018. 

(3) Huang X., Mao Y.-S., Li C., Wang H., Ji J.-L. Venlafaxine inhibits apoptosis of hippocampal neurons by up-regulating brain-derived neurotrophic factor in a rat depression model. Pharmazie. 2014;69(12):909–916. doi: 10.1691/ph.2014.4661. [PubMed] [Cross Ref].

(4)  Djordjevic A., Djordjevic J., Elaković I., Adzic M., Matić G., Radojcic M. B. Fluoxetine affects hippocampal plasticity, apoptosis and depressive-like behavior of chronically isolated rats. Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry. 2012;36(1):92–100. doi: 10.1016/j.pnpbp.2011.10.006. [PubMed] [Cross Ref].

(5) Wei Liu, et.al. The Role of Neural Plasticity in Depression: From Hippocampus to Prefrontal Cortex. 2017. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5299163/ >. Acesso em: 14/05/2018.

(6) Freud, S. Projeto para uma Psicologia Científica. Rio de Janeiro: Imago, Original de 1912. 1990. (Obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 1). 

(7)  Linden, D E J. How psychotherapy changes the brain – the contribution of functional neuroimaging. Molecular Psychiatry. 2006/03/07/online. Disponível em: < http://www.nature.com/articles/4001816 >. Acesso em: 14/05/2018. 

(8) Serina Deen. How Psychotherapy Changes the Brain. 2015. American Psychitriac Association. APA Blogs. Disponínel em: < https://www.psychiatry.org/news-room/apa-blogs/apa-blog/2015/08/how-psychotherapy-changes-the-brain >. Acesso em: 14/05/2018. 

(9) Júlio Fernando Prieto Peres, Antônia Gladys Nasello. Psicoterapia e neurociências: um encontro frutífero e necessário. 2005. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872005000200003 >. Acesso em: 14/05/2018. 

(10) (Kandel, Schuartz & Jessell, 2000): Kandel, E.R., Schuartz, J.H. & Jessell, T.M. (2000). Principles of Neural Science (4. ed). 

(11) (Peres & Nasello, 2005): Peres, J.F.P. & Nasello, A.G (2005). Neuroimagem em Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Em R. Caminha (Org.). Transtorno do Estresse Pós-Traumático: da neurobiologia à terapia cognitiva. (pp. 65–94) Porto Alegre: Ed. Casa do Psicólogo. 

(12) Yi-Yuan Tang, Leslie D Leve. A translational neuroscience perspective on mindfulness meditation as a prevention strategy. 2015. NCBI - National Center for Biotechnology Information. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4807201/ >. Acesso em: 14/05/2018. 

(13) Andrew Newberg MD e Mark Robert Waldman. How God Changes Your Brain: Breakthrough Findings from a Leading Neuroscientist. 2009. Editora: Ballantine Books. 368 p.